Durante a gravidez e nas primeiras semanas após o parto, muitas mulheres têm pensamentos inesperados e angustiantes envolvendo o bebê, como acidentes, quedas ou até machucar a criança sem querer. Conhecidos como “pensamentos intrusivos”, esses episódios, embora raramente compartilhados com profissionais de saúde, podem indicar vulnerabilidade a transtornos de ansiedade e depressão no período perinatal, segundo estudo publicado na revista Science Advances.
Os pensamentos intrusivos surgem de forma abrupta, indesejada e contrária aos valores da mãe, causando intenso desconforto. “Não refletem desejo ou intenção real, mas sim medo e hipervigilância”, explica o ginecologista e obstetra Rômulo Negrini, coordenador materno-infantil do Einstein Hospital Israelita. Diferenciam-se da preocupação normal da maternidade por serem lampejos mentais repentinos, e não frutos de ruminação planejada.
Enquanto cerca de 80% das mulheres vivenciam o baby blues — choro, tristeza, irritabilidade e ansiedade nas duas a três semanas após o parto —, a depressão pós-parto é persistente e pode afetar o vínculo mãe-bebê, exigindo atenção especializada. Estudos indicam que entre 70% e 100% das mães têm pensamentos intrusivos, e metade delas chega a imaginar danos ao bebê, embora sem qualquer ação.
Fatores hormonais, como alterações em estrogênio, progesterona e cortisol, combinados com sono fragmentado, isolamento, medo de não dar conta e falta de apoio, contribuem para o surgimento dessas intrusões. “É a interação entre todos esses fatores que favorece os pensamentos intrusivos”, aponta Negrini.
O especialista ressalta a importância de buscar ajuda quando os pensamentos são repetitivos, há impulsos de agir, evitação do bebê ou ansiedade intensa que prejudica os cuidados. A terapia cognitivo-comportamental (TCC) adaptada ao contexto perinatal é indicada, enquanto casos mais graves podem requerer antidepressivos compatíveis com o aleitamento materno, sempre sob supervisão psiquiátrica. O suporte emocional, a redução do estresse e a melhora do sono também são fundamentais.
Profissionais de saúde devem abordar o tema de forma aberta e normalizadora, incluindo triagem para ansiedade durante o pré-natal e envolvimento de parceiros e familiares no planejamento do pós-parto. “Cuidar da saúde mental da mãe é cuidar da saúde do bebê e de toda a família”, finaliza Negrini, destacando que falar sobre pensamentos intrusivos não indica perigo, mas sim autoconsciência e proteção.
Com informações do Metrópoles







