Minhas meninas já se tornaram adultas há cerca de vinte anos, embora continuem sendo as nossas crianças. Por isso, não temos barulho de criança em casa há bastante tempo. Aliás, até uns dez anos atrás — talvez um pouco mais — cuidávamos de nosso sobrinho Gabriel durante o dia. Assim, havia uma criança em casa, ainda que em horário reduzido, apenas à tarde.
Além dele, a última vez que tivemos crianças em casa foi quando meus netos portugueses nos visitaram em fevereiro passado. Eu havia sofrido um acidente grave e não pude ir a Portugal para vê-los. Foi uma festa ter novamente o riso, a falação e a bagunça de criança pela casa.
Era verão e Ian ainda era pequenino, com pouco mais de um ano. Corria de lá para cá, às vezes pelado, brincava na água da piscininha que colocamos para eles, pulava na cama como se fosse trampolim e fazia mil estripulias. Já Rio, com cinco anos prestes a completar seis, era mais comedido. Gostava de procurar aparelhos de som vintage, como discman, walkman ou toca-fitas coloridos de criança, e se ocupava ouvindo música. O pai dele é músico, então a música faz parte da sua formação. Não há coisa melhor no mundo do que ter os netos na casa do vovô e da vovó.
Depois de quase dois anos de molho em casa, finalmente nos aventuramos e compramos passagem para Portugal. Não sabia como seria ficar tanto tempo sentado dentro de um avião — nove horas — mas precisava tentar. Não foi fácil: tive que levantar várias vezes, andar pelo corredor, ficar na beirada para esticar as pernas, usar meia compressora…, mas sobrevivi. Ao chegar, não pude andar como gostaria, mas aos poucos vou me adaptando, andando pouco, usando carro de aplicativo e metrô.
Vale tudo a pena quando, de manhã, antes de ir para a escolinha, Ian — agora com dois anos — vem ao nosso quarto dar bom dia e brincar conosco. Ele ainda fala o “bebenês” fluente, poucas palavras em português, mas conseguimos entender muito bem o que quer dizer. Ele chega, dá beijo, deita na cama, pede para fazer tendinha com a coberta e solta um riso delicioso.
Eu, na verdade, acordo cedo, entre seis e meia e sete horas, e escuto quando ele desperta — seja às sete, sete e meia ou, raramente, às oito. É muito prazeroso ouvir a corrida dos pezinhos fofos do quarto até a copa, a falação logo ao levantar, a cantoria e o bom humor matinal. Eu sorria no escuro do quarto. Ninguém via, nem eu mesmo, mas como era bom escutar os pezinhos ligeiros de Ian no corredor, falando muito naquela língua só dele.
Escuto tudo e não levanto para não atrapalhar a dinâmica da casa pela manhã, antes de Ian e Rio irem para a escola. Quando eles estão prontos, eu me levanto e até levo Rio para a escola, às vezes, ou acompanho quem for levar Ian para a escolinha.
Ter crianças na vida da gente mais uma vez, agora os netos, poder vê-los crescer — ainda que não todo o tempo — é um privilégio que não tem dinheiro que pague. É uma segunda vida.







