Meio Ambiente

Brasil figura entre países com maior impacto de toxicidade agrícola

Foto: Divulgação / PCMG

Um levantamento publicado na revista Science mostra que a toxicidade dos pesticidas cresceu em todo o mundo entre 2013 e 2019, contrariando a meta da ONU de reduzir em 50% os riscos até 2030, estabelecida na COP15 sobre Biodiversidade. A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade de Kaiserslautern-Landau, na Alemanha, que avaliaram 625 pesticidas em 201 países utilizando o indicador de Toxicidade Total Aplicada (TAT) — métrica que combina volume de uso e grau de toxicidade das substâncias.

Impacto sobre espécies

Seis dos oito grupos de espécies analisados apresentaram aumento de vulnerabilidade:

• Artrópodes terrestres (insetos, aracnídeos, lacraias): +6,4% ao ano
• Organismos do solo: +4,6%
• Peixes: +4,4%
• Invertebrados aquáticos: +2,9%
• Polinizadores: +2,3%
• Plantas terrestres: +1,9%

Em contrapartida, houve queda apenas para plantas aquáticas (−1,7%) e vertebrados terrestres (−0,5%), grupo que inclui os humanos.

Brasil em destaque

O Brasil aparece como um dos países com maior intensidade de toxicidade por área agrícola, ao lado de China, Argentina, Estados Unidos e Ucrânia. Junto com China, EUA e Índia, concentra entre 53% e 68% da toxicidade total aplicada no planeta. A relevância brasileira está diretamente ligada ao peso do agronegócio, sobretudo em culturas extensivas como soja, algodão e milho, que apresentam impacto desproporcional em relação à área cultivada.

Classes químicas dominantes

O estudo mostra que, em média, apenas 20 pesticidas por país respondem por mais de 90% da toxicidade total.

• Inseticidas como piretroides e organofosforados foram responsáveis por mais de 80% do TAT em invertebrados aquáticos, peixes e artrópodes terrestres.
• Neonicotinoides, organofosforados e lactonas dominaram os impactos sobre polinizadores.
• Herbicidas como acetamida, sulfonilureia, paraquat e glifosato contribuíram fortemente para o TAT de plantas terrestres e aquáticas.
• Fungicidas da classe conazol e benzimidazol, além de neonicotinoides usados no revestimento de sementes, impactaram organismos do solo.

Meta distante

Entre os 65 países avaliados, apenas o Chile deve atingir a meta da ONU. China, Japão e Venezuela apresentam tendências de queda, mas precisam acelerar mudanças. Já Tailândia, Dinamarca, Equador e Guatemala estão se afastando do objetivo, com indicadores que dobraram nos últimos 15 anos. O Brasil, assim como a maioria, precisaria reverter padrões de uso consolidados há décadas para retornar aos níveis de risco de mais de 15 anos atrás.

Caminhos apontados

Os pesquisadores sugerem três frentes principais para conter a escalada:

• Substituição de pesticidas altamente tóxicos.
• Expansão da agricultura orgânica.
• Adoção de alternativas não químicas, como controle biológico, diversificação agrícola e manejo de precisão.

O diagnóstico é claro: sem mudanças estruturais profundas, o mundo — e especialmente o Brasil — está longe de cumprir a meta global de redução da toxicidade dos pesticidas até 2030.

Com informações da Agência Brasil