Formiga

FEC: todos têm culpa, ninguém tem razão

A tragédia da queda do Formiga Esporte Clube já estava anunciada desde o início de ano; aliás, desde o início de anos anteriores. Toda nova temporada é a mesma ladainha. Sempre pairam as mesmas questões do tipo: ?o FEC está sem dinheiro?, ?a prefeitura vai ou não vai ajudar??, ?a Câmara não vai intervir??, ?o estádio Juca Pedro está sem os laudos?. Sabe, fazer futebol não deve ser fácil. Ao menos os dirigentes de grandes clubes dizem isso. Zezé Perrella dizia. Kalil sempre diz. Se é difícil para Cruzeiro e Atlético, imagina para o Formiga?
Mas nem por isso, o clube nem a cidade devem desistir. O povo daqui sempre deu seu voto de confiança para o FEC. Sempre lotou o estádio, aderiu a programas de sócio, comprou rifa, independentemente do time ser bom ou ruim.
Lembro que, quando o Formiga voltou ao profissionalismo, viajei até Alfenas para acompanhar aquele que seria um jogo histórico ? o primeiro no profissional após décadas ? mesmo tendo ficado 0 a 0. Isso foi em julho de 2006. Naquele ano, o FEC fez uma campanha perfeita na terceira divisão e logo subiu para o Módulo II. Era ali que o clube já deveria se preparar, pois a cidade já tinha abraçado a causa e lotado o Juca Pedro. No entanto, o que se viu, mesmo com o nome do FEC em alta por todo o estado, foi um clube teimando em aprender a ser profissional e muitas questões foram empurradas com a barriga.
Em 2007, na ascendente, o Formiga continuou sua luta, lotando o estádio (que já era pequeno para o público da cidade e região) e esteve prestes a subir para a elite do futebol mineiro. Uma trajetória meteórica que só Deus sabe como foi paralisada, desde os incidentes envolvendo o jogo contra o Uberlândia no Juca Pedro à inexplicável incapacidade de se fazer 2 pontos em 3 jogos, quando o time tomou um gol ?intomável? contra o Valério aos 48 do segundo tempo, em partida que vencia em Itabira ou quando lotou o estádio Farião em Divinópolis e perdeu a partida para o Social logo no primeiro minuto de jogo. Desde então, o Formiga não se encontrou mais no Módulo II. Foram cinco participações café com leite, todas elas lutando contra suas próprias mazelas e contra os questionamentos de sempre: ?o FEC está sem dinheiro?, ?a prefeitura vai ou não vai ajudar??, ?a Câmara não vai intervir??, ?o estádio Juca Pedro está sem os laudos?. Talvez hoje as coisas fazem mais sentido quando pensamos como o clube não subiu em 2007.
De longe, a temporada 2012 foi a mais conturbada. O clube passou por uma transição administrativa e muita gente imaginou que alguma coisa poderia mudar. Mas os tais questionamentos chatos de virada de ano vieram à tona, abalizados por uma crise política interna. Geralmente uma das primeiras matérias dos jornais da cidade, todos os anos, é ?FEC pode não disputar o Campeonato Mineiro?. Reflexo da falta de planejamento não só do clube, mas também dos setores público e privado da cidade. O único preparado na história sempre foi o torcedor. Ao Formiga, em todos estes anos, faltou visão. Muitas coisas foram, de fato, tratadas amistosamente. Ou amadoramente.
Com o apoio popular, o Formiga deveria ter buscado parcerias e ser mais criativo. Veja o caso do Nacional de Nova Serrana: fez uma parceria com o Cruzeiro e, em dois anos, subiu para a elite do Mineiro, quase se classificou para as semifinais e já deixou um legado para aquela cidade: um novo estádio. Isso porque o torcedor de Nova Serrana não tem 20% da paixão pelo futebol que o formiguense tem.
Como amante do futebol, sempre torço para que não só o Formiga, mas todos os outros times da cidade tenham sucesso. Mas é sempre difícil quando olhamos a coisa com racionalidade: em 2007 já se sabia que o FEC não cabe dentro do Juca Pedro. Isso significa dizer, a grosso modo, que nem os que dirigem (ou dirigiram) o clube e o município sabem da dimensão. Ou ao menos não se atentaram para isso. Ou não quiseram.
Nessa história não tem mocinhos nem vilões. Na verdade, só o torcedor formiguense abraçou a causa desde o início. Este, coitado, é quem paga o pato hoje.