Formiga

Correr provoca onda igual à da maconha

Muitos antropólogos acreditam que o ato de correr guiou a evolução dos primeiros humanos. A espécie corria em busca de comida e também para escapar dos predadores.
Mas, apesar de essa teoria evolucionista ser defendida por corredores de longas distâncias, correr tem um custo alto, metabolicamente falando. Além de incinerar energia, também causa lesões. Um tornozelo torcido, por exemplo poderia facilmente remover o humano primitivo da cadeia genética.
Saber por que nossos ancestrais continuaram correndo por milênios – e não só em atos que envolviam estratégias de sobrevivência – foi o que motivou a pesquisa do professor de antropologia da Universidade do Arizona, David A. Raichlen.
Nos questionamos se a seleção natural pudesse ter utilizado mecanismos neurobiológicos para encorajar a atividade física, explica o professor.
Especificamente, Raichlen e sua equipe se interessaram no papel evolutivo do sistema endocanabinoide. Como o nome sugere, os endocanabinoides são compostos químicos que, como na maconha, alteram e melhoram o humor. Mas o corpo produz essas substâncias naturalmente e, em outros estudos, demonstrou-se que seus níveis aumentam depois de longos períodos de corrida ou pedalada, levando muitos cientistas a concluir que o composto auxilia a criar uma espécie de onda do corredor.
Raichlen, então, se questionou se os endocanabinoides tiveram um papel mais ativo no desenvolvimento da raça humana como um todo. Teríamos, afinal, continuado a correr, não porque tínhamos que correr, mas porque havíamos nos tornado altamente dependentes da sensação provocada pela corrida?
Testes. Para testar essa ideia, o pesquisador e sua equipe decidiram comparar a reação dos endocanabinoides à prática do exercício em espécies que, historicamente, são conhecidas por correr e em outras que não correm. Com isso, eles queriam verificar quais animais têm o mesmo estímulo pela corrida.
Os furões foram os escolhidos para representar os não corredores. Já os corredores foram representados por humanos e cães. Assim, os cientistas recrutaram dez pessoas que praticam corrida por lazer e oito cães de raças diferentes.
Todos os participantes do estudo – humanos e animais – foram submetidos a exames de sangue e cada um deles fez uma corrida de 30 minutos em uma esteira elétrica em um ritmo correspondente a, aproximadamente, 70% de sua capacidade cardíaca máxima.
Em um outro dia, humanos e cães caminharam pelos mesmos 30 minutos na esteira. Já os furões, que tiveram dificuldades com a esteira, permaneceram por 30 minutos em suas gaiolas.
Depois de cada sessão, os cientistas colhiam uma amostra de sangue e faziam as análises em busca dos endocanabinoides.
Como esperado, os humanos mostraram um aumento significativo nos níveis de endocanabinoides depois de correr. Os cães também tiveram os mesmos picos de endocanabinoides, sugerindo, pela primeira vez, que eles também sentem a onda do corredor.
Nenhuma das espécies, porém, sentiu a onda depois de uma caminhada. Já os furões, não tiveram altas de endocanabinoides depois de nenhuma das atividades, demonstrando que eles não sentem nenhum prazer no ato de correr.