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Familiares se recusam a doar órgãos em 47% dos casos

Cerca de 24 mil brasileiros ? 2.646 somente em Minas ? estão na fila aguardando uma doação. O número, porém, poderia ser bem menor. Segundo a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), dos 8.871 potenciais doadores de órgãos e tecidos identificados no país no ano passado, apenas 2.526 se tornaram doadores efetivos, e o principal motivo foi a recusa de 47% das famílias de pacientes diagnosticados com morte encefálica.
?Apesar de termos conseguido identificar mais possíveis doadores de 2012 para 2013, eles não se tornaram doadores efetivos porque houve aumento da negativa familiar. Isso significa que quase metade das famílias disse ?não?. É um percentual alto, mas não tenho dúvida de que melhoraríamos esse quadro se houvesse mais diálogo?, afirmou o presidente da ABTO, Lúcio Pacheco.
Foi pensando nisso que a associação lançou, em abril, a campanha ?Eu Assumi?, convidando os doadores de órgãos a declararem sua vontade usando uma funcionalidade do Facebook. Embora somente a família possa autorizar a doação quando uma pessoa é diagnosticada com morte encefálica, a intenção é promover o debate.
?Quando se faz o diagnóstico de morte cerebral, a equipe vai conversar com a família do paciente para saber se autoriza ou não a doação dos órgãos. Mas é sempre um momento difícil. Você acaba de receber a notícia de que uma pessoa querida faleceu e ao mesmo tempo tem que tomar uma decisão. Por isso, o que a gente quer é tirar a discussão da porta do hospital e levar para dentro de casa, para que as pessoas conversem e saibam a vontade de seus familiares?, explicou Pacheco.
Segundo o médico José Neto, coordenador do serviço de nefrologia do Hospital Felício Rocho, em Belo Horizonte, essa conscientização é fundamental para mudar o quadro atual. ?É importante entender que a doação, além de não fazer mal nenhum ao paciente de morte encefálica, é um grande bem que se faz a outras pessoas, que ganham uma vida nova?.

Angústia é principal marca da fila de espera

Enquanto a doação não chega, pacientes na fila por um órgão sentem a angústia da espera ? que pode demorar meses ou anos. Diagnosticada com problemas nos rins em 1998, a psicóloga Valdirene Aparecida Latalisa, 41, conseguiu um doador vivo meses depois. Em 2006, porém, seu corpo rejeitou o rim que recebeu da mãe, e ela precisou retomar as sessões de hemodiálise, feitas três vezes por semana, durante quatro horas.

?Quando fiz o transplante minha qualidade de vida melhorou demais. Só de não ter que ficar presa a uma máquina quase todo dia já é maravilhoso?, contou a psicóloga. ?Hoje, o mais complicado é ficar sem tomar água. Mas entrego a Deus. Acredito que vai acontecer na hora certa?.

Segundo o médico Lúcio Pacheco, a angústia na fila é grande principalmente porque todos sabem que é uma doença que tem cura, mas que depende de que a sociedade doe os órgãos.

Cinquentenário

O primeiro transplante na América Latina completou 50 anos em abril. Sérgio Vieira Miranda, à época com 18 anos, era portador de pielonefrite crônica (infecção do rim) e foi submetido ao transplante no Rio de Janeiro.

A sobrevida de pacientes naquela época era pequena, já que havia alto índice de rejeição e de infecções e ainda não eram usados imunossupressores (substâncias preventivas). Eles começaram a ser usados em 1983.