Formiga

?Que o sangue da minha filha não tenha sido derramado em vão?, diz mãe de Jussara Favarini

O assassinato da formiguense Jussara Carolina de Paula Favarini, de 26 anos, assustou e indignou a todos que tiveram acesso às informações sobre o triste caso. Em sites de relacionamento, mensagens de apoio à família da vítima e de repúdio aos suspeitos de estuprar e matar com dois tiros a jovem Jussara, Nilson Rodrigues, de 19 anos, e Leandro Martins da Conceição, de 18 anos. Ambos com uma extensa ficha criminal em Uberlândia, cidade em que ocorreu o homicídio, na quinta-feira da semana passada (16).
Na casa da família de Jussara Favarini, além de muita tristeza, o clima é de incompreensão, pois não se conformam com tamanha barbaridade. Não encontram explicações para a falta de humanidade daqueles jovens. Apesar de todo o sofrimento, é a própria mãe de Jussara, Rosa Helena de Almeida, uma senhora muito simpática, quem conforta as pessoas que vão à sua casa para levar palavras de apoio à família.
Muito religiosa, ela consegue compartilhar com serenidade a fé em Deus e levar ânimo para seus familiares e amigos nesse momento tão difícil pelo qual passam. ?Nós estamos recebendo muito apoio de todos. Eu me sinto tranquila, porque me apego a Deus. Ele é quem me dá força?, ressalta.
Rosa de Almeida é um exemplo de mulher forte. Em entrevista ao jornal Nova Imprensa e ao portal Últimas Notícias, ela disse esperar a justiça de Deus e dos homens. ?Que o sangue derramado da minha filha sirva de exemplo, que frutifique, que semeie, que não seja em vão?, enfatizou ao contar uma reportagem que viu na televisão sobre uma família do Maranhão, que vivia em conflitos com a filha jovem, e, após saber da morte de Jussara, resolveu se conciliar e impedir que a moça fosse embora de casa.
A irmã da vítima, a administradora Júnia Cristina de Paula, parece estar mais fragilizada com o assassinato de Jussara. Apesar da aparente tranquilidade da sua fala, os olhos denunciam a inconformidade e a revolta.
Júnia de Paula acha que a história sobre o homicídio da irmã está mal contada. Ela não consegue entender por que a mataram e não roubaram nada, por exemplo, as jóias que estavam dentro da Mitsubishi. ?Eu falava com ela para não andar de carro com os vidros abertos?, conta. ?Você é muita bonita, chama a atenção?, disse ela à irmã, quando esteve uma vez em Uberlândia para visitá-la.
A cidade localizada no Triângulo Mineiro leva a fama de ser muito violenta e de ter altos índices de estupros. Aliás, segundo Júnia de Paula, Jussara tinha muito medo de ser uma vítima de violência sexual.
De acordo com a irmã da vítima, a personal trainner da academia onde a formiguense frequentava contou que, quando ligou para Jussara, que estava atrasada para a aula, sentiu a aluna nervosa e ouviu vozes masculinas e barulho de vento. ?A personal perguntou se ela iria na academia. Minha irmã disse que hoje [16 de junho, dia do crime] não daria para ir, mas que iria amanhã?, relatou Júnia. Para ela, Jussara já estava em poder dos jovens acusados de cometer o crime. ?Dá uma revolta tão grande?, lamenta a irmã.
Jussara Favarini era sócia do marido, Alexandre Favarini, em uma loja de venda de celulares, em Uberlândia. Formada em ciências biológicas no Centro Universitário de Formiga (Unifor), ela chegou a dar aulas na área e trabalhou em um laboratório na cidade. No Dia dos Namorados (12 de junho), o casal completou dois anos de casamento. ?O casal era muito feliz. Eles estavam muito felizes. O marido fazia de tudo para a Jussara e ela o apoiava, estava sempre do lado dele. Eles planejavam ter um filho?, conta a mãe da vítima.
O pai Olemar José de Paula acha que a filha morreu em um acidente de carro. A família não quis contar o que realmente aconteceu, porque ele já é um senhor de 70 anos e teve um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Durante a entrevista na casa da família, Olemar não acompanhou às perguntas. Mas parecia querer estar por perto e conversar com a equipe de reportagem. Hora ele chorava e era levado para o interior da casa e, de repente, já estava com um sorriso simpático no rosto, querendo agradar as visitas.
?Ela era muito apegada com a família, era uma menina muito iluminada?, diz Rosa de Almeida ao se lembrar dos momentos em que conviveu com a filha.
O corpo de Jussara Favarini foi velado na Funerária do Marquinho e sepultado no Cemitério do Santíssimo, no sábado passado (18). No momento em que o caixão estava sendo colocado na sepultura, todos bateram palmas em homenagem a jovem. ?Foi um momento de muita emoção?, disse Júnia de Paula.
A missa de sétimo dia de Jussara foi realizada na quarta-feira (22), na Matriz São Vicente Férrer.
Entenda o caso
A Polícia Civil apresentou, no fim da tarde do domingo passado (19), Nilson Rodrigues, de 19 anos, e Leandro Martins da Conceição, de 18, suspeitos do assassinato da empresária Jussara Carolina de Paula Favarini. Ambos confessaram ter roubado, estuprado e matado a vítima.
Eles foram presos na noite de sábado (18), no bairro Custódio Pereira, zona leste de Uberlândia. De acordo com o delegado regional da Polícia Civil, Samuel Barreto, o plano da dupla era apenas fazer um roubo. ?Como viram que ela não tinha dinheiro, pegaram o carro e se dirigiram rumo à BR 452 e lá a violentaram?, disse. Leonardo Correa Dantas, de 36 anos, também foi preso pela receptação de um macaco e um estepe do carro da vítima.
De acordo com os suspeitos, Jussara estava em frente a uma academia no bairro Fundinho, na região central, quando foi abordada. Eles rodaram pela cidade por cerca de uma hora e meia e resolveram levar a jovem para uma estrada vicinal, próximo à penitenciária Pimenta da Veiga. No local, ela foi estuprada e morta. Leandro Martins afirmou não ter violentado a empresária. ?Eu só assassinei, dei tiros na cabeça dela?, afirmou. Nilson Rodrigues contrariou o comparsa e contou que foi Leandro quem decidiu matá-la, para não ser reconhecido. ?Fomos nós dois [que estupraram]. Fui eu e depois ele. Ele [Leandro] falou que ela já o tinha visto e que ia reconhecê-lo. Vamos matá-la?, disse.
Investigação
De acordo com as investigações da Polícia Civil, após matar Jussara, os indivíduos foram até Corumbaiba, no estado de Goiás, a cerca de 120 km de Uberlândia. Na cidade, os documentos da vítima foram encontrados, o que ligou o crime a Nilson Rodrigues. Ainda segundo a Polícia Civil, ele é acusado de roubar outros carros para venda na cidade goiana.
Dessa vez, porém, o carro foi trazido de volta a Uberlândia, e abandonado no bairro Brasil. Câmeras de vigilância próximas ao local flagraram dois homens deixando carro, o que ajudou a polícia. ?Eles não queriam vender o carro, queriam levantar um dinheiro. Então se interessaram apenas em pegar o estepe e o macaco, e vender por R$ 80?, disse o delegado regional, Samuel Barreto. ?Ia vender as rodas do carro?, disse Nilson Rodrigues.
Suspeitos estavam tranquilos em depoimento
Apesar de presos, Nilson Rodrigues e Leandro Martins não esboçaram arrependimento pela morte da empresária Jussara Favarini. De acordo com o delegado Samuel Barreto, os dois contaram como foi o crime com riqueza de detalhes e extrema tranquilidade.
O delegado informou que Rodrigues já responde a outro inquérito por roubo e é suspeito de assaltos em série em Uberlândia. Já Martins foi apreendido pela primeira vez quando ainda era adolescente e estava sob liberdade assistida. O terceiro, Leonardo Dantas, já respondeu a outro processo por receptação de produtos roubados.
Os dois primeiros foram autuados por latrocínio – roubo seguido de morte – e Dantas por receptação. O trio foi levado para o Presídio Jaci de Assis.
Vasta ficha criminal
Os jovens Nilson Rodrigues e Leandro Martins da Conceição que mataram Jussara são indicados como autores de pelo menos dez roubos à mão armada cometidos em diferentes regiões de Uberlândia. A informação foi confirmada na terça-feira (21) pela Polícia Civil (PC).
Também na terça-feira, pela manhã, os dois suspeitos foram levados até a 1ª Delegacia Regional de Uberlândia por agentes penitenciários para que cinco vítimas da dupla os reconhecessem. Eles já estavam caracterizados como detentos, vestidos com o uniforme laranja do sistema prisional e com as cabeças raspadas.
Nos crimes supostamente praticados por eles, que ocorreram entre 2010 e 2011, os alvos seriam motoristas de carros de luxo. Os veículos seguiriam para desmanches.
Segundo o delegado Hélder Carneiro, para cada caso de roubo, há um inquérito separado que está sob a responsabilidade do delegado que atua na área onde ocorreu o respectivo crime. ?Somente comigo estão quatro inquéritos?, disse. O delegado, por exemplo, é responsável por investigações na Área Integrada de Segurança Pública (Aisp) 88, que compreende vários bairros da zona leste da cidade de Uberlândia.
Ainda segundo o delegado, os inquéritos serão concluídos no prazo de uma semana e, em seguida, remetidos em conjunto à Justiça. ?Na segunda-feira que vem, dia 27, devemos convocar coletiva de imprensa para divulgar o resultado das averiguações dos dez casos?, disse.