Um suposto “Comunicado Geral” atribuído a organizações criminosas passou a circular na última segunda-feira (9) em Belo Horizonte, no mesmo dia em que um duplo homicídio foi registrado no Morro do Papagaio, na região Centro-Sul da capital. O texto aponta para um possível novo capítulo da guerra entre facções que, desde o fim de 2025, tem provocado episódios de violência em Belo Horizonte e na Região Metropolitana.
Comunicado atribuído a facções
O documento, datado de 9 de março, seria assinado pelas facções Primeiro Comando da Capital (PCC), Família AR (AR-118) e Terceiro Comando Puro (TCP), que, conforme noticiado em outubro de 2025, teriam formado uma “união” em Minas Gerais. Na mensagem, os grupos ameaçam integrantes do Comando Vermelho (CV) e também pessoas que mantenham amizade ou proximidade com membros da facção carioca.
No texto, os autores afirmam que o Comando Vermelho não teria espaço no Estado “nem de corre, nem de moradia e muito menos em negociações”. O comunicado também declara que não será permitido negociar “mercadorias” com integrantes do grupo rival.
A mensagem ainda diz que qualquer pessoa considerada próxima ao CV será tratada como “inimigo” e orienta que moradores fiquem atentos à presença de integrantes da facção em “qualquer cidade de Minas, bairros, becos e vielas”. Em caso de identificação, o texto pede que a chamada “sintonia final” das três facções seja acionada para que sejam tomadas “as medidas cabíveis”.
A reportagem procurou a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) para comentar o suposto comunicado e as ações para conter o avanço das facções em Minas Gerais, mas até a publicação não houve manifestação do órgão.
Homicídios recentes na Grande BH
Nos últimos dias, homicídios que podem estar relacionados à disputa entre facções foram registrados na Grande BH. Na quinta-feira (5), um homem apontado como um dos líderes da Família AR, conhecido como “Sobrinho”, foi morto com sete tiros no bairro Novo Boa Vista, em Contagem.
De acordo com o registro policial, suspeitos chegaram armados à comunidade pela BR-040 um deles portando uma arma longa e executaram o traficante. Após o ataque, comparsas teriam revidado, resultando em intensa troca de tiros. Os suspeitos fugiram pela rodovia em direção a Ribeirão das Neves. Horas depois, um homem foi preso após dar entrada baleado na UPA de Pedro Leopoldo.
Já na madrugada de segunda-feira, dia em que o comunicado começou a circular, dois homens, de 25 e 27 anos, morreram após serem baleados no Morro do Papagaio. Uma mulher de 32 anos, ex-esposa da vítima de 27 anos, também foi atingida durante o ataque, mas sobreviveu.
Pouco depois do primeiro chamado, a polícia recebeu outra ocorrência informando que um homem havia sido baleado no beco São José. Os militares encontraram a vítima caída com diversas perfurações na cabeça. O homem de 27 anos foi identificado como integrante da facção denominada Paulo Augusto e é filho de um ex-chefe do grupo assassinado em março do ano passado. A mulher atingida no braço foi socorrida por moradores da região.
Disputa entre facções e escalada da violência
A violência está inserida em um cenário mais amplo de disputa entre facções pelo controle do tráfico em Belo Horizonte e na Região Metropolitana, intensificado desde o fim de 2025. O conflito tem afetado diretamente a rotina dos moradores e chegou a provocar mudanças no itinerário de linhas de ônibus na região do Barreiro.
Entre os episódios ligados à escalada da violência está uma tentativa de invasão atribuída ao TCP no Morro das Pedras, na região Oeste de BH, em 19 de novembro de 2025. A comunidade é conhecida há décadas como reduto do Comando Vermelho na capital mineira.
No dia seguinte, circularam mensagens de “toque de recolher” orientando moradores a não deixarem crianças nas ruas. Dez dias depois, em 29 de novembro, um homem de 47 anos foi executado com tiros de fuzil calibre 5.56 no bairro Bonsucesso, no Barreiro.
Em 4 de dezembro de 2025, um ataque realizado por integrantes do CV vestidos como policiais civis, durante uma confraternização após uma partida de futebol no Conjunto Esperança, deixou dois mortos e nove feridos.
Outro caso ocorreu em 11 de janeiro de 2026, quando um homem de 41 anos morreu após ser atingido por uma bala perdida na Vila Cemig. Mais recentemente, em 18 de janeiro, um ataque em um bar na avenida Silva Lobo deixou um adolescente de 14 anos e um homem de 32 mortos, além de um jovem de 17 ferido.
No dia seguinte, mensagens compartilhadas por WhatsApp impuseram regras de circulação na Vila Cemig, orientando motoristas a trafegarem com faróis baixos e luz interna acesa. Por causa da insegurança, as linhas de ônibus 332 e 319 passaram a operar com trajetos alterados na região.
A circulação do comunicado atribuído a facções criminosas e os recentes episódios de violência reforçam o clima de tensão provocado pela disputa entre grupos rivais pelo controle do tráfico em Belo Horizonte e na Região Metropolitana, cenário que tem impactado diretamente a rotina e a segurança dos moradores.
Com informações do jornal O Tempo








