Minas Gerais chega às eleições de 2026 com 637.785 eleitores analfabetos, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O número corresponde a 3,89% dos 16,3 milhões de eleitores do estado e coloca Minas na liderança nacional em quantidade absoluta de eleitores registrados como analfabetos.
O estado aparece à frente da Bahia e de São Paulo. Em relação ao eleitorado nacional, Minas representa 10,3% do total de pessoas aptas a votar, mas concentra 11,6% dos eleitores classificados como analfabetos.
Minas lidera número de eleitores analfabetos
No Sudeste, a diferença também chama atenção. Minas Gerais reúne 24,7% do eleitorado da região, mas concentra 41,3% dos eleitores registrados como analfabetos.
Os números fazem parte de um levantamento realizado pela equipe de dados de O TEMPO.
Para quem não sabe ler ou escrever, o acesso às informações eleitorais pode ocorrer por diferentes caminhos. Televisão, vídeos, áudios pelo celular e conversas com familiares, amigos e pessoas de confiança estão entre as formas utilizadas para conhecer candidatos e propostas.
Na hora da votação, números, rostos e a memória também ajudam esses eleitores a identificar os candidatos.
Como os eleitores analfabetos se informam
Um dos eleitores entrevistados é Marcus Vinícius Rodrigues de Barros, de 30 anos. Morador da comunidade rural de Chaves, em Itambacuri, no Vale do Mucuri, ele não sabe ler nem escrever, mas assina o próprio nome.
Mecânico de motos, Marcus aprendeu sozinho a profissão e atualmente mantém uma oficina. Quando o assunto é política, ele combina as informações recebidas pelo celular com a opinião de pessoas em quem confia.
O uso do celular também aumentou sua autonomia. Quando recebe uma mensagem escrita, pede que a pessoa envie um áudio. Vídeos de candidatos também são utilizados como fonte de informação.
Apesar da dificuldade com a leitura, Marcus consegue lidar com números, fazer contas e memorizar os números dos candidatos. No dia da eleição, utiliza santinhos como referência para chegar à urna sabendo em quem pretende votar.
Televisão também é fonte de informação
Aos 72 anos, Virgínia do Amaral de Paula, moradora do Alto Vera Cruz, em Belo Horizonte, também não lê, mas afirma que faz suas próprias escolhas políticas.
A televisão é uma das principais fontes de informação para ela. Virgínia frequentou a escola aproximadamente dos 7 aos 11 anos, mas deixou os estudos para cuidar dos irmãos enquanto a mãe trabalhava.
Na vida adulta, trabalhou principalmente com limpeza e em casas de família. Sobre política, afirma confiar na memória e na própria avaliação do desempenho dos candidatos.
Segundo ela, familiares, igreja e lideranças comunitárias não determinam seu voto.
Analfabetismo não significa incapacidade política
Para a cientista política e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Mayra Goulart, recorrer a pessoas de confiança para obter informações não é uma característica exclusiva de quem tem dificuldade de acesso à informação escrita.
Segundo a especialista, familiares e lideranças locais podem funcionar como referências para diferentes eleitores. Ela também destaca que o analfabetismo cria barreiras para acessar e organizar informações, mas não significa incapacidade para participar politicamente ou definir o próprio voto.
Quem é considerado analfabeto?
De acordo com o IBGE, é considerada analfabeta a pessoa que declara não saber ler e escrever um bilhete simples no idioma que conhece. A classificação também inclui quem aprendeu a ler e escrever, mas esqueceu, ou quem apenas consegue assinar o próprio nome.
Os 637.785 eleitores citados na reportagem são aqueles que aparecem no cadastro do TSE com grau de instrução classificado como “analfabeto”.
Voto é facultativo para analfabetos
A Constituição estabelece que o alistamento eleitoral e o voto são facultativos para pessoas analfabetas. A mesma regra vale para jovens de 16 e 17 anos e para pessoas com mais de 70 anos.
Mesmo sendo facultativo, esse eleitorado é considerado nas pesquisas de intenção de voto. Segundo Audrey Dias, cientista política e coordenadora de Pesquisa do DATATEMPO, os eleitores analfabetos que possuem título eleitoral fazem parte do universo pesquisado e são representados de acordo com a proporção existente no eleitorado.
Virgínia, por exemplo, reúne duas condições que tornam o voto facultativo: é analfabeta e tem mais de 70 anos. Ainda assim, afirma que pretende continuar participando das eleições.
Minas tem 637 mil eleitores analfabetos
Com 637.785 eleitores registrados como analfabetos, Minas Gerais lidera o ranking nacional em números absolutos para as eleições de 2026.
Apesar das dificuldades relacionadas ao acesso à informação escrita, os relatos mostram que esses eleitores utilizam diferentes recursos para se informar e tomar suas próprias decisões nas urnas.
Fonte: Maria Irenilda/ O Tempo






