Ao longo da vida, entregamos nossa existência a mãos alheias sem perceber a real dimensão desse gesto.
Depositamos nossa saúde nas mãos de médicos e hospitais, confiando que o diagnóstico certo virá, que o remédio certo nos irá sarar, que o bisturi não falhará. Entretanto, o que sabemos sobre quem nos toca no momento mais frágil de nossa saúde e vida? Acontece que, por um instante, achamos que eles têm poderes sobrenaturais e esquecemos que eles são pessoas normais e falíveis.
Entregamos nosso futuro a políticos, esperando que decisões tomadas por eles nos conduzam a um bem comum que nem sempre sabemos definir e, ainda assim, votamos, obedecemos, temos esperanças e, muitas vezes, ficamos frustrados. A esperança é uma luz futura para os problemas do povo, mas ela não pode depender do desempenho individual de outra pessoa.
Confiamos nossa mente e nossas dores mais íntimas a psicólogos, na esperança de que compreendam o que nem nós conseguimos explicar, e recebemos sugestões de efetuar mudanças em nossas vidas que achamos impossíveis de se fazer.
E, por fim, entregamos aquilo que escapa a qualquer explicação racional, como o nosso medo, a morte, o sentido da própria existência, a líderes religiosos limitados por serem humanos.
Essa cadeia de entregas revela a necessidade de acreditar que alguém sabe mais do que nós e pode nos guiar com segurança. Mas será que essa necessidade nasce da razão ou do medo? Precisamos confiar porque isso é sensato, ou confiamos porque a alternativa de caminhar sozinhos, sem mapa e sem guia, seria insuportável?
O livro Flores para Algernon, de Daniel Keyes, ilustra muito bem esse dilema. A obra narra a história de Charlie Gordon, um homem com deficiência intelectual que se submete a um tratamento experimental na esperança de se tornar mais inteligente. Na página 145, é dito: “Mas é assustador compreender que meu destino está nas mãos de homens que não são os gigantes que um dia imaginei, homens que não têm todas as respostas”.
No cotidiano, fazemos exatamente o mesmo. Colocamos nossas vidas e problemas nas mãos de desconhecidos, supondo eles terem uma capacidade sobrenatural. Por que atribuímos a outros um poder que, no fundo, sabemos eles não ter? Seria mais sábio confiar menos ou seria simplesmente impossível existir sem essa entrega?
Talvez a resposta não esteja em deixar de confiar, mas em confiar com cautela e com a certeza de todos sermos humanos e limitados. Médicos erram, políticos falham, psicólogos têm problemas insolúveis, religiosos são, antes de tudo, humanos tateando no escuro como nós. Não seria essa, afinal, a verdadeira definição da fé, onde confiamos não porque temos certeza, mas apesar de não a termos?
No fim, talvez o que nos resta não seja a certeza de mãos seguras, mas a aceitação de que caminhamos amparados por aquilo que nunca poderemos controlar ou compreender por completo e acabamos nas mãos de forças místicas e religiosas.
Euler Antônio Vespúcio






