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E por falar em eletrônica… César Lattes e a descoberta que mudou a física, mas não lhe deu o Nobel

Imagem ilustrativa/IA

O físico brasileiro César Lattes (1924–2005) teve participação decisiva na descoberta do méson pi, uma das descobertas que ajudaram a abrir caminho para a moderna física de partículas. Aos 26 anos, Lattes realizou experimentos fundamentais na Universidade de Bristol, na Inglaterra, e posteriormente em Berkeley, nos Estados Unidos. Apesar de sua contribuição, o Prêmio Nobel de Física de 1950 foi concedido exclusivamente ao britânico Cecil Powell, chefe do laboratório de Bristol.

Na virada da década de 1940, a física nuclear buscava compreender o que mantinha prótons e nêutrons unidos no núcleo atômico. Entre as hipóteses estava a existência do méson, partícula teórica prevista pelo físico japonês Hideki Yukawa.

Foi nesse contexto que César Lattes, então jovem pesquisador, desenvolveu um trabalho fundamental na Universidade de Bristol. Ao estudar raios cósmicos, percebeu que as emulsões fotográficas utilizadas para registrar as partículas precisavam ser modificadas. A adição de boro às chapas de gelatina evitava o desbotamento das imagens e permitia registrar com maior nitidez as trajetórias das partículas.

Em 1947, Lattes levou os equipamentos para o Monte Chacaltaya, na Bolívia, situado a mais de 5 mil metros de altitude. A elevada altitude favorecia os estudos com raios cósmicos. As chapas fotográficas revelaram a existência do méson pi, também chamado de píon.

No ano seguinte, na Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, Lattes participou da detecção da mesma partícula produzida artificialmente em um acelerador de elétrons, o sincrociclotron. O resultado confirmou que a descoberta realizada nos Andes não havia sido um acaso.

A descoberta teve grande impacto na comunidade científica internacional e contribuiu para o desenvolvimento da física de partículas. Em 1950, porém, o Prêmio Nobel de Física foi concedido ao britânico Cecil Powell, chefe do laboratório de Bristol, “pelo seu desenvolvimento do método fotográfico de estudo dos processos nucleares e pelas suas descobertas relativas aos mésons efetuadas com este método”.

Lattes, responsável pela modificação das chapas utilizadas nos experimentos e por parte fundamental das pesquisas realizadas nos Andes e em Berkeley, não recebeu o prêmio. O italiano Giuseppe Occhialini, outro colaborador importante do experimento, também ficou de fora.

Segundo a interpretação apresentada no texto original, as regras do Comitê Nobel daquele período favoreciam o reconhecimento do líder do laboratório ou do principal responsável pela pesquisa. O episódio também passou a ser associado ao peso do eurocentrismo na academia e às dificuldades enfrentadas por pesquisadores de países periféricos para obter reconhecimento internacional.

Apesar da ausência do Nobel, Lattes manteve ao longo da vida uma postura de relativo desapego em relação ao episódio. Em entrevistas posteriores, costumava afirmar que “essas coisas dependem de política” e destacava o avanço do conhecimento como o verdadeiro resultado de seu trabalho.

De volta ao Brasil, o físico utilizou seu prestígio para contribuir para a construção das bases da ciência nacional. Lattes foi uma das figuras fundamentais na criação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF).

Seu nome também permanece associado à ciência brasileira por meio da Plataforma Lattes, principal plataforma de currículos acadêmicos do país.

A trajetória de César Lattes permanece ligada a uma das descobertas mais importantes da física de partículas no século XX. Embora não tenha recebido o Nobel de Física de 1950, sua participação na descoberta do méson pi e sua contribuição para a ciência brasileira consolidaram seu lugar na história da física. Sua trajetória também permanece como referência para o debate sobre reconhecimento científico e sobre o espaço ocupado por pesquisadores de diferentes regiões do mundo na história da ciência.

 

Alexandre Bertozzi-Engenheiro eletricista e professor universitá[email protected]