No laboratório de Matemática da Universidade de Cambridge, em 1949, cientistas e engenheiros testemunharam o funcionamento do EDSAC (Electronic Delay Storage Automatic Calculator), máquina desenvolvida sob a liderança do Dr. Maurice Wilkes. Capaz de realizar cálculos automatizados com programas armazenados, o computador introduziu uma solução incomum para a época: o uso de mercúrio líquido para guardar dados.
Uma memória feita de mercúrio
Com cerca de 3.000 válvulas, o EDSAC representou uma mudança em relação a máquinas como o ENIAC americano. Até então, computadores funcionavam como grandes calculadoras e exigiam que técnicos alterassem fisicamente centenas de cabos para executar novas tarefas.
O EDSAC introduziu uma memória interna dinâmica baseada em longos tubos de aço preenchidos com mercúrio líquido, conhecidos como linhas de retardo acústico.
Os dados binários, representados por uns e zeros, eram convertidos em pulsos sonoros por cristais piezelétricos. As ondas acústicas percorriam o mercúrio até a outra extremidade do tubo, onde eram captadas, amplificadas, limpas e enviadas novamente ao início.
Esse processo mantinha a informação circulando pelo sistema até que fosse necessária.
“A informação viajava pelo mercúrio na velocidade do som”, explicou o Dr. Maurice Wilkes.
“Conseguimos manter os dados vivos e acessíveis dentro dos tubos sem a necessidade de engrenagens mecânicas ou uma infinidade de fios”.
A fita perfurada substitui os cabos
A programação também era mais simples. As instruções eram registradas em uma fita de papel perfurada, semelhante às utilizadas nos telégrafos. O computador lia os furos, convertia as informações em pulsos elétricos e os enviava aos tubos de mercúrio.
A memória conseguia armazenar até 512 palavras, capacidade disputada por astrônomos, químicos e matemáticos da Universidade de Cambridge para resolver equações complexas em minutos, em tarefas que antes podiam levar semanas.
O sistema exigia, porém, controle rigoroso de temperatura. O calor poderia alterar a velocidade do som no mercúrio e comprometer os dados armazenados.
Um marco no caminho dos computadores
O funcionamento do EDSAC demonstrou a viabilidade de uma nova forma de processamento eletrônico. A máquina deixou de ser apenas um experimento de laboratório e tornou-se uma ferramenta de trabalho para a ciência e a indústria.
Com seus tubos de mercúrio e seu sistema de memória, o computador de Cambridge ajudou a consolidar o conceito de programas e dados armazenados dentro da própria máquina, abrindo um novo capítulo na história da computação.
Alexandre Bertozzi-Engenheiro eletricista e professor universitário. [email protected]






