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Empatia, simpatia e rejeição: as alavancas do voto

Foto: UN

Uma eleição não se decide apenas no confronto de propostas. Decide-se também na relação que o candidato estabelece com o eleitor. Antes de examinar um programa, o eleitor se pergunta: ele entende minha vida? Parece uma pessoa em quem posso confiar? Desperta vontade de aproximação ou de afastamento? Nesse campo, empatia, simpatia e rejeição funcionam como três alavancas da imagem política. Duas podem abrir portas; a terceira pode fechá-las.

Empatia

Empatia é a capacidade de compreender a experiência do outro, suas dificuldades e expectativas. Na política, significa perceber o mundo a partir do lugar ocupado pelo cidadão. O trabalhador que enfrenta três conduções e a mãe que espera uma consulta para o filho querem mais do que uma exposição de indicadores. Querem reconhecer, na fala do candidato, alguém que sabe o peso de suas preocupações.

Isso exige escuta, respeito e disposição para traduzir dificuldades em prioridades. A frase “sei o que você está passando” perde força quando aparece acompanhada de respostas evasivas. A empatia ganha consistência quando o problema ouvido se transforma em proposta compreensível, com meios de execução. Há diferença entre explorar a dor de alguém diante das câmeras e assumir compromisso com sua solução.

Simpatia

Simpatia pertence a outro plano. É a impressão favorável despertada pelo jeito de falar, pelo sorriso, pelo humor e pela facilidade de convivência. A simpatia pode reduzir a distância entre o palanque e a plateia. Mas ser agradável não significa compreender o eleitor. Pode haver cordialidade sem escuta e sensibilidade em uma pessoa reservada. Confundi-las é um erro.

O estudo de Randall Renstrom e Victor Ottati, pesquisadores norte-americanos de psicologia, com trabalhos sobre ciência política, publicado no Journal of Social and Political Psychology, encontrou, em dois experimentos, avaliações mais favoráveis e maior intenção de voto diante de mensagens empáticas. O resultado indica o valor da linguagem, mas experimentos não reproduzem toda a complexidade eleitoral. Partidos, trajetória, contexto econômico e credibilidade também pesam.

Rejeição

A rejeição, por sua vez, é a barreira que se ergue quando uma parcela do eleitorado afirma que não votaria naquele nome. Suas raízes variam: decepção administrativa, suspeitas de corrupção, divergência ideológica, comportamento agressivo ou associação com um grupo político. Há rejeição à pessoa, ao partido ou ao que simbolizam. Por isso, um índice isolado informa menos do que a investigação dos motivos que o sustentam.

Também é preciso distinguir rejeição de desconhecimento e de desaprovação. Um eleitor pode avaliar mal um governo e preferir seu representante às alternativas. Pode não conhecer um candidato e mudar de posição depois de ouvi-lo. A declaração de que jamais votaria em alguém deve ser lida no contexto da pergunta e das opções disponíveis. Não existe um percentual mágico que, sozinho, decrete derrota. A disputa depende também do adversário.

Voto contra

Quando a competição se estreita, o voto contra pode ganhar protagonismo. O cidadão escolhe um candidato para impedir a vitória do outro, mesmo sem entusiasmo. Essa adesão exige cautela: vitória eleitoral não equivale a aprovação irrestrita. Quem toma o voto de contenção como um cheque em branco pode transformar uma maioria circunstancial em frustração duradoura.

As três forças se cruzam. A simpatia pode facilitar o primeiro contato; a empatia pode aprofundar a identificação; a rejeição pode impedir que a mensagem seja sequer considerada. Um político hábil no palco pode parecer distante quando trata de problemas concretos. Outro, tecnicamente preparado, pode perder espaço por transmitir arrogância. E alguém muito querido por sua base pode provocar resistência fora dela. A mesma fala produz efeitos diferentes.

Dimensão ética

Nas redes sociais, esses sentimentos encontram um ambiente de exposição contínua. Um gesto de atenção pode circular ao lado de um recorte de irritação; uma brincadeira pode soar acolhedora para uns e ofensiva para outros. Não basta fabricar uma personalidade impecável. A distância entre a personagem e a conduta cotidiana fragiliza a imagem. A coerência precisa sobreviver à câmera desligada.

Há uma dimensão ética nesse debate. Ouvir não pode ser apenas técnica de persuasão, nem demonstrar afeto pode servir de licença para prometer o impossível. O candidato deve combinar proximidade com responsabilidade e sensibilidade com capacidade de governar. Afinal, a democracia empobrece quando a disputa se limita a escolher quem diverte mais ou quem provoca menos antipatia.

A imagem política se sustenta no encontro entre palavras, atitudes e resultados. Simpatia atrai; empatia aproxima; rejeição afasta. Nenhuma dessas forças dispensa propostas, integridade e competência. O desafio de uma candidatura é fazer o cidadão sentir que será ouvido sem pedir que ele abandone o julgamento crítico. O sorriso pode abrir a conversa. A compreensão pode dar sentido a ela. Mas será a realidade, depois da eleição, que dirá quanto valiam aqueles gestos.

 

Gaudêncio Torquato