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Por que você vê tantas opiniões parecidas nas redes sociais? Entenda como funcionam os algoritmos

Foto: Magnific/Imagem ilustrativa

Encontrar repetidamente opiniões semelhantes nas redes sociais pode criar a impressão de que a maioria das pessoas pensa da mesma maneira. No entanto, o conteúdo exibido no feed é resultado de uma seleção personalizada, influenciada pelos perfis seguidos, pelas interações e pelo tempo dedicado a cada publicação. Para ampliar o contato com diferentes pontos de vista, especialistas recomendam diversificar as fontes de informação, rever hábitos de navegação e adotar ferramentas disponíveis nas plataformas.

Segundo Gabriel Goerhing, especialista em estratégias de comunicação digital pela Fundação Getulio Vargas (FGV), as plataformas observam o comportamento dos usuários para prever quais conteúdos podem despertar maior interesse.

Quando uma pessoa consome publicações semelhantes com frequência, os sistemas podem recomendar mais conteúdos na mesma direção, reduzindo o contato com outras perspectivas.

“O cuidado é perceber que o feed é um recorte personalizado. O que aparece muito para você não representa, necessariamente, o que a maioria das pessoas pensa”, afirma Goerhing.

Esse mecanismo pode contribuir para a formação das chamadas bolhas informacionais, nas quais os usuários são expostos repetidamente a ideias e argumentos semelhantes, com menor diversidade de opiniões.

A seleção de conteúdos não depende apenas de curtidas e comentários. De acordo com Leonardo Adamo, especialista em inovação, inteligência artificial e transformação digital e fundador da Hyti, empresa brasileira de Tecnologia da Informação, outros comportamentos também podem influenciar o que aparece no feed.

Assistir a um vídeo até o fim, reproduzi-lo novamente ou permanecer por mais tempo em uma publicação são ações que podem ser interpretadas pelas plataformas como sinais de interesse.

“O detalhe é que atenção não significa concordância: podemos ficar em uma publicação porque gostamos dela ou se ficamos indignados”, explica Adamo.

Dessa forma, compartilhar uma publicação para criticá-la ou comentar para reclamar pode contribuir para que conteúdos semelhantes continuem sendo recomendados. Embora nem todas as interações produzam o mesmo efeito, a crítica não garante que a plataforma compreenda que o usuário deseja deixar de receber aquele tipo de material.

Um dos sinais de alerta é perceber que, apesar da variedade de perfis acompanhados, os argumentos e as conclusões apresentados são sempre parecidos.

Goerhing também recomenda observar como as opiniões divergentes aparecem no feed. É importante identificar se esses pontos de vista são apresentados integralmente ou se surgem apenas por meio de críticas, piadas e trechos selecionados para desqualificá-los.

Essa análise ajuda a perceber se o usuário está realmente em contato com diferentes perspectivas ou se recebe apenas versões fragmentadas de opiniões contrárias.

É possível influenciar os conteúdos exibidos nas redes sociais, mas uma ação isolada não garante mudanças duradouras. Por isso, os especialistas recomendam incorporar algumas práticas à rotina digital.

Entre as principais orientações estão:

  • Diversificar as fontes: acompanhar pessoas de outras regiões, áreas de atuação e experiências de vida, além de buscar diferentes perspectivas sobre os mesmos assuntos.
  • Consumir os novos conteúdos: ler publicações e assistir aos vídeos dos perfis seguidos. Apenas acompanhar uma conta, sem interagir ou consumir seu conteúdo, pode ter efeito limitado.
  • Comparar informações: consultar a cobertura de um mesmo assunto em fontes confiáveis que apresentem abordagens distintas.
  • Utilizar os controles disponíveis: selecionar a opção “não tenho interesse” e revisar periodicamente os perfis seguidos para ajustar os conteúdos recebidos.

Mesmo um feed organizado em ordem cronológica pode permanecer restrito quando o usuário acompanha apenas pessoas que compartilham opiniões semelhantes.

Goerhing ressalta, entretanto, que ampliar as referências não significa aceitar assédio ou ofensas. Bloquear pessoas como forma de proteção pessoal continua sendo uma atitude legítima.

Ter contato com diferentes pontos de vista também exige distinguir interpretações divergentes de informações que não apresentam evidências.

Antes de compartilhar um conteúdo, Goerhing recomenda verificar quem o publicou, a origem da informação, a data de divulgação e a possibilidade de consultar o documento, a pesquisa ou a declaração completa que fundamenta a publicação.

“Ter muitos seguidores ou falar com muita segurança não substitui esses critérios. E o mesmo cuidado precisa valer para os conteúdos com os quais a gente concorda”, afirma o especialista.

A orientação reforça a importância de aplicar os mesmos critérios de verificação tanto às informações que confirmam as próprias opiniões quanto àquelas que apresentam argumentos contrários.

Além das mudanças de comportamento dos usuários, os especialistas apontam que as próprias plataformas devem avaliar a qualidade da experiência oferecida.

Essa avaliação deve considerar se as recomendações apresentam informações úteis e favorecem o contato com outras perspectivas, em vez de apenas reproduzir conteúdos semelhantes aos já consumidos.

Para isso, são necessários mais transparência sobre os critérios utilizados na seleção das publicações, ferramentas que permitam aos usuários ajustar as recomendações e acesso para avaliações independentes, sempre com proteção da privacidade.

 

Com informações do Metrópoles