Com uma saúde já bastante fragilizada por diversas comorbidades, Maria do Carmo Santos, 75, precisou ser hospitalizada com uma infecção urinária em janeiro. Ao longo de 60 dias de internação, a idosa teve um AVC e duas pneumonias, que ocorreram em decorrência da Covid-19, descoberta tardiamente. “Percebemos que havia uma demanda muito grande de nos hospitais, com uma sobrecarga de trabalho dos profissionais de saúde, o que afetou até a dinâmica de tratamento dos pacientes”, contou a filha, Juliana Maria de Oliveira, 38.

Mesmo com alertas da professora sobre a possibilidade da mãe ter contraído o vírus, a equipe do hospital só realizou um teste na semana seguinte, quando a infecção estava no fim. “As unidades estão muito tumultuadas por conta desse volume de internações”, relatou. No fim de março, Maria conseguiu a alta hospitalar para continuar o tratamento em casa – por conta da atual condição clínica, ela só consegue se alimentar através de uma sonda que vai direto no estômago, com uma dieta específica. Porém, a mãe da Juliana precisou voltar a ser internada no último fim de semana, diante do excesso de potássio no sangue.

“Fizemos contato com o plano de saúde dela, que é a Unimed, e o único que tinha vaga era o Hospital Santa Rita, em Contagem”, disse. E foi quando situações inimagináveis começaram a acontecer: conforme Juliana, a unidade não disponibilizou nem fraldas descartáveis e ela ainda precisou buscar em casa a dieta que a mãe utilizava. “Mudaram as acomodações para atender em maior volume. Pegaram uma paciente da gravidade da minha mãe, que parou de andar, não fala, tem várias complicações, e colocaram em um local inadequado para as especificidades dela”, disse.

Além do atendimento precário, a filha contou que faltou até roupa de cama durante a internação. “Os médicos estavam extremamente sobrecarregados, todos os materiais que ela necessitava para o tratamento não chegavam em tempo”. Por isso, ela solicitou a transferência para outro hospital, o que foi negado em um primeiro momento. Após assumir a responsabilidade da alta para que a mãe voltasse para casa, Juliana conseguiu uma vaga em uma unidade de Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte.

E experiências como a da professora são cada vez mais comuns até em hospitais particulares e sintetizam os impactos da pandemia nos atendimentos de outras enfermidades. O professor da Faculdade de Medicina da UFMG e presidente da Sociedade Brasileira de Bioética, Dirceu Greco, lembra que a doença trouxe ainda mais dificuldades para todo o sistema de saúde, principalmente a rede pública. “Nos últimos anos, houve um subfinanciamento muito grande do SUS, como programa Saúde da Família. O que já era precarizado, ficou pior ainda”, explicou. 

Muito além dos atendimentos de emergência, Greco acrescentou que campanhas de prevenção de doenças, como dengue e zika, praticamente pararam, o que trará reflexos graves em um futuro próximo. “Um trabalho da OMS mostrou que, se a pandemia continuar, teremos um aumento enorme de patologias como HIV, malária e tuberculose, por exemplo. A Covid-19 ainda tira o foco das pessoas sobre doenças oncológicas, cardiovasculares e pode levar a um diagnóstico muito tardio”, disse.

‘Sistema não tem condições de absorver toda a demanda’

Há mais de 40 anos, o médico endoscopista e membro da Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva (Sobed), Ronaldo Taam, atua no SUS. Conforme o especialista, a taxa de ocupação dos leitos de UTI sempre estiveram perto de 100%. “Trabalhamos com muitas restrições, que aumentaram de um tempo para cá. Sem dúvida, o sistema de saúde não tem condições de resolver ou pelo menos atender esses casos todos que já estávamos tratando e mais esse aumento provocado pela pandemia”, enfatizou.

Para o médico, outro problema trazido pela doença foi em relação à prevenção ao câncer, como o colorretal, responsável por 41.000 novos casos todos os anos no Brasil. Dados da Sobed revelaram que só em Minas Gerais o número de diagnósticos realizados para identificar a doença teve uma queda de 33% no ano passado. “Um câncer descoberto em fase inicial traz mais condições de oferecer um tratamento que traga sobrevida ou cura. Acredito que vamos ter casos acumulados e também em estágios avançados”, resumiu.

O especialista pontuou ainda que, por medo de serem contaminadas, as pessoas deixaram de procurar as unidades de saúde e a pandemia também levou ao adiamento de cirurgias eletivas. “Exige uma preocupação dos hospitais em tentar manter os procedimentos, mas a recomendação que temos quando há número elevados de Covid-19 é que sejam cancelados. Um procedimento desse pode gerar internação, pode ter uma doença em fase avançada ou que precise de uma cirurgia”, afirmou.

Mortes por doenças cardiovasculares cresceram até 132%

Um estudo conduzido por pesquisadores da UFMG, em parceria com a UFMG e a Sociedade Brasileira de Cardiologia, mostrou que o número de mortes por doenças cardiovasculares, como infartos e AVCs, cresceu até 132% no país durante a pandemia em 2020 – foram avaliadas seis capitais brasileiras. A pesquisa também revelou que problemas de saúde como diabetes e hipertensão se agravaram durante o isolamento social.

A principal causa do problema, segundo os pesquisadores, ocorreu devido à menor frequência do acompanhamento das enfermidades, com redução das consultas, exames e até cirurgias também por medo de contágio da Covid-19.

Sem resposta

Procurada pela reportagem do jornal O Tempo sobre o problema enfrentando pela Maria do Carmo, o Hospital Santa Rita ainda não se pronunciou. Já a Unimed-BH declarou, em nota, que “toda a rede própria e credenciada de Belo Horizonte e região metropolitana vem sendo impactada pela alta demanda por leitos”, mas que todos os clientes que necessitam de assistência são atendidos.

“A Cooperativa esclarece que a paciente foi assistida durante todo o tempo, sendo acompanhada pela equipe de atendimento domiciliar, além de ter recebido atendimento em dois hospitais da sua rede credenciada”, informou.

Fonte: O Tempo

Comentários
COMPATILHAR: