Um mês e meio após o fechamento do comércio, Belo Horizonte vive a expectativa de novidades, que devem chegar nesta segunda-feira (19). O prefeito Alexandre Kalil (PSD) vai realizar um pronunciamento durante coletiva de imprensa agendada para as 14h de hoje. A reabertura de lojas em cidades da região metropolitana, como Contagem, Santa Luzia e Nova Lima, engrossa a perspectiva de liberação do comércio presencial, mas o cenário ainda é incerto.

Em retrospecto aos números de ocupação de leitos que a cidade apresentava quando ocorreu o fechamento das lojas em março, por exemplo, os dados não são favoráveis. Mas existe a hipótese de que a reabertura de algum segmento seja anunciada, e um deles pode ser o da educação.

Uma mudança de entendimento do Executivo vem ocorrendo nas últimas semanas, e agora a prefeitura avalia a possibilidade de reabrir as escolas antes de outros segmentos da economia. A retomada das aulas presenciais neste momento envolveria somente alunos de até 9 anos e seria realizada com estudantes separados em grupos de 6 ou 7 alunos, as chamadas ‘bolhas’. Pesquisas internacionais que demonstraram que o índice de transmissão do vírus não é tão grande entre crianças no ambiente escolar ajudaram a fortalecer essa guinada na rota. “Os números nos colocam otimistas em relação à possibilidade de abertura (das escolas), mas depende do comportamento da cidade. Se não colaborarem, tudo volta à estaca zero”, informou Ângela Dalben, secretária municipal de educação.

Uma reunião com alguns secretários será realizada antes da coletiva com jornalistas. No encontro, ao meio-dia, Kalil terá às mãos os dados de ocupação de leitos e transmissão do coronavírus. Participam da mesa os infectologistas do comitê de combate à Covid, acompanhados pelos chefes de pastas como Saúde, Desenvolvimento Econômico, Segurança, Planejamento e Assistência Social. A contaminação causada pelas novas cepas do vírus, no entanto, é um dos itens que preocupa a prefeitura, e isso pode adiar, por exemplo, a reabertura do comércio ou de casas gastronômicas.

Números desfavoráveis

Quando o fechamento mais recente do comércio foi anunciado, no dia 5 de março, a capital apresentava a taxa de ocupação de leitos de UTI Covid em 81%. Em janeiro, mês em que as lojas também tiveram que fechar, o índice era de 86,1%. O número atualmente está em 86,9%, mas a cidade ampliou suas possibilidades de atendimento. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, são 570 leitos atualmente “Somente em março, foram abertos 265 leitos de UTI Covid e 408 leitos de enfermaria Covid na rede SUS-BH”, informou a pasta, por meio de nota.

Nos últimos dias, os infectologistas que trabalham com o prefeito têm se reunido com maior frequência para avaliar qual a melhor decisão a ser tomada. Eles teriam estado juntos ao menos duas vezes na semana passada. Ontem também mantiveram contatos telefônicos. Unaí Tupinambás, um dos integrantes do comitê municipal, se esquivou de informar o cenário atual. “Os números (em BH) estão caindo, mas no Brasil ainda é preocupante”, resumiu.

Comércio pressiona flexibilização

Os comerciantes apostam que o anúncio de Kalil os autorize a retomar o funcionamento das lojas. Para eles, a medida é urgente e envolve a preparação para o Dia das Mães, celebrado em maio. A data é a segunda melhor em faturamento para o setor. Presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL/BH), Marcelo de Souza e Silva explicou que os lojistas estão se sentindo sufocados. “A única coisa que esperamos é a reabertura imediata. Não suportamos mais”, disse. Para ele, o cenário sanitário da capital vem apresentando melhora, o que justificaria a retomada do comércio. “Temos índices em queda, transmissão abaixo de 1, ocupação de leitos em tendência de queda, vacina avançando, insumos e medicamentos para intubação chegaram na sexta-feira (16), então não vemos mais impeditivos”, listou.

O entendimento do Conselho Municipal de Saúde vai em sentido oposto. Para Carla Anunciatta, presidente da entidade, ter pacientes aguardando por leitos de UTI é apenas um dos termômetros que demonstram a impossibilidade de autorizar as atividades presenciais. Segundo ela, eram cerca de 100 pessoas nessa situação na quinta-feira (15). A prefeitura, porém, não divulga esse dado, alegando haver dinamismo constante nos índices. “Não deve haver flexibilização enquanto houver essa fila e os estoques de medicamentos para intubação não forem regularizados. E também enquanto não tiver parcela significativa da população vacinada”, criticou. A tese do Conselho é que a capital inicie um aperto nas regras e promova o fechamento da cidade durante três semanas. “Até colocar os índices epidemiológicos em condições mais aceitáveis”, sublinhou.

Academias, bares e restaurantes agonizam

A pressão para a retomada da flexibilização do comércio é defendida também por representantes de outras categorias, como academias de ginástica e alimentação fora de casa. A cidade chancelada como capital dos botecos tem visto seus bares sofrendo perdas financeiras incalculáveis. As últimas semanas, com aperto maior nas restrições, deixaram ainda mais crítica a situação das casas gastronômicas. “Mais de 90% dos estabelecimentos não conseguiram pagar o salário integral dos funcionários, e 74% tiveram que demitir nos primeiros meses do ano”, informou Matheus Daniel, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel-MG). “A abertura é essencial, e esperamos a liberação da bebida alcoólica. Abrir bar sem cerveja é como abrir padaria sem pão”, completou.

Também de portas fechadas, as academias agonizam igualmente. “Imaginamos que ele (Kalil) reabra, o segmento está sofrendo muito”, disse Gustavo Fleming, presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Natação, Ginástica, Recreação e Cultura Física de Minas Gerais. Segundo ele, as academias não causam nenhum problema que provoque elevação nos casos de infecção por Covid. Não existe consenso a esse respeito, no entanto. Uma pesquisa da Universidade de Stanford, na Califórnia, divulgada em dezembro, concluiu que academias de ginástica e restaurantes são os lugares com maior risco de transmissão de Covid entre pessoas sem máscara.

Fonte: O Tempo

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