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E por falar em eletrônica… Narinder Singh Kapany: o físico que materializou a fibra óptica

Foto: Sikh Art from the Kapany Collection

Em um período em que a transmissão de informações dependia quase exclusivamente de cabos metálicos e sinais elétricos, a ideia de conduzir luz por fios de vidro parecia improvável, quando não absurda. Foi nesse contexto que, em 1952, o físico Narinder Singh Kapany apresentou a proposta de guiar a luz por fibras de vidro. A reação de parte da comunidade científica foi de descrédito e até ironia. Décadas depois, porém, a tecnologia baseada nessa ideia considerada “impossível” tornou-se essencial para o mundo digital: hoje, cerca de 99% de todos os dados que circulam pela internet viajam por fibras ópticas.

O princípio científico por trás da inovação

Kapany demonstrou, de forma prática, o princípio da reflexão total interna. Esse fenômeno ocorre quando a luz atinge a interface entre dois meios em um ângulo crítico específico, fazendo com que ela seja totalmente refletida, em vez de escapar para o meio externo. A partir dessa propriedade física, o pesquisador conseguiu manter a luz confinada dentro de um material transparente.

Para isso, Kapany utilizou fibras de vidro com núcleo de aproximadamente 9 micrômetros — dimensão menor que a espessura de um fio de cabelo humano. Esse avanço permitiu a criação do primeiro “canal de luz” eficiente, capaz de transportar sinais luminosos de forma contínua e controlada, abrindo caminho para uma nova forma de comunicação.

Do ceticismo à aplicação prática

Apesar da relevância científica da descoberta, a aplicação prática da fibra óptica não foi imediata. A primeira transmissão efetiva de dados por meio dessa tecnologia só ocorreu em 1970, quase duas décadas após as propostas iniciais de Kapany. Durante esse período, a ideia permaneceu subestimada, mesmo diante de seu potencial transformador.

Ainda assim, a fibra óptica consolidou-se como a espinha dorsal da infraestrutura global de comunicações. Atualmente, essa tecnologia sustenta um mercado estimado em cerca de US$ 5 trilhões anuais, valor que reflete sua importância estratégica para a economia digital. Mesmo diante desse impacto, Narinder Singh Kapany nunca recebeu o Prêmio Nobel por sua contribuição.

Impacto na sociedade digital

A evolução da fibra óptica levou a capacidades de transmissão que superam em muito o que se imaginava nos anos 1950. Hoje, uma única fibra óptica moderna pode transportar até 1 terabit por segundo (Tbps), viabilizando aplicações que dependem de grandes volumes de dados em tempo real.

Sem essa tecnologia, serviços amplamente utilizados, como streaming de vídeos, videochamadas e computação em nuvem, simplesmente não existiriam. Cada vez que um usuário assiste a um vídeo em 4K ou realiza uma chamada pela internet, está, na prática, testemunhando a materialização de uma visão científica que foi ridicularizada por cerca de duas décadas.

A história de Narinder Singh Kapany exemplifica como ideias inicialmente desacreditadas podem redefinir o mundo. A internet moderna depende de fios de vidro mais finos que um fio de cabelo, conduzindo luz com precisão extrema. O que começou como uma proposta vista com desconfiança tornou-se um dos pilares da comunicação global, transformando profundamente a forma como pessoas, empresas e sociedades se conectam.