Formiga

Entrevista com um buraco que nasceu, cresceu e ainda não morreu

Bom dia Sr. Buraco. Bom dia, mas, por favor me trate pelo apelido, eu sou o legítimo ?João Buracão?, o único que não solta as tiras, mas tem cheiro. Sou diferente das havaianas, ouviu? Aliás, se você não sabe hoje eu até sou considerado como importante ponto turístico desta cidade. Tem cidade que tem Mineirão, outra tem Minhocão, Gambazão, Castelão e aqui, temos o Buracão. Eu, com muito orgulho, oh meu!
Já fui pequenininho, como é todo mundo ao nascer. Acho até que fui batizado ainda na administração passada, depois cresci mais e hoje já estou assim, bem mais grandalhão, não é? Parece que o ?Moa?, o novo alcaide não gosta de mim. Já vi ele passando por aqui uma pá de vezes e ele, acho que propositadamente, se vira pro outro lado, só para fingir que não me vê. É bom ele saber que se já fui do Lulu, agora sou problema dele.
Sabe moço, há pouco tempo passei por uma crise de identidade, pois uns buracos mais antigos que eu, bem menores eu sei, me disseram que eu nasci há muito mais tempo do que penso. Me garantiram que eu vim ao mundo ainda na administração do Juju e com a chegada desta manta preta que espalharam na rua, fiquei hibernando por alguns anos. Se for verdade, tenho mesmo um DNA de urso, o que não quer dizer que sou amigo urso. Portanto, não vejo motivo para o alcaide e seus assessores deste e do outro governo que já se foi, fingirem que eu sequer existo.
Tá certo que com este DNA não posso ser considerado como um do povo, o que aliás, como eu já soube, é a preferencia do novo alcaide. Por ele, (o povo, é claro), faz qualquer negócio. Mas o povo daqui da região, até já me adotou e me tolera. Se bem que tem uns fdp que andam jogando lixo em cima de mim, como se buraco de buraco fosse coisa para se colocar estas coisas.
Sou um buraco consciente. Sei que atrapalho, sei que coloco em risco a população que transita por aqui e sei também que quando a chuva vier pra valer, meu fim estará próximo. Vou desmoronar e me espalharei pelo rio. Não vai dar prá juntar os cacos mas, se isto vier mesmo a ocorrer, pode saber que pelo menos, metade da vizinhança daqui, rua, calçada, meio fio, encanamento e estes pauzinhos que botaram ao meu redor, algum carro que estiver estacionado, árvores vizinhas, postes, carroças e seus respectivos burrinho e carroceiros, eu levo tudo comigo.
Parece que este povo da Prefeitura ainda não desconfiou duma verdade: buraco, quanto mais a gente tira dele, maior ele fica. Maior e mais forte, viu!
Quero aproveitar o senhor que é do jornal para lembrar a estes bestas que passam por aqui, agarradinho em mim, que buraco é igual a briga política: se maltratado, que nem eu, tem começo, mas num tem fim, nunca, viu?