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Jesus Cristo cobrava dez por cento?

Foto: UN

Recentemente, ouvi de um evangélico que o dízimo é bíblico. Será mesmo? Ser bíblico é ser válido? Jesus cobrava? Talvez seus apóstolos? Quem sabe os sucessores dos apóstolos cobrassem dez por cento?

O primeiro ponto é entender que Jesus veio aperfeiçoar a Lei e os Profetas (Mt 5,17). Para Moisés, todo grande pecador deveria morrer (Lv 20), e isso é tão bíblico quanto pagar dez por cento. Jesus nunca cobrou dízimo; até pagou o imposto do Templo dele e de Pedro (os únicos adultos), e apenas para não escandalizar (Mt 17,23ss).

Jesus vivia de doações das mulheres (Lc 8,1-3). Por isso, dentre os doze, escolheu um tesoureiro, além da Pedra (Pedro, πέτρᾳ, kefas, líder — não confundir com a pedra fundamental, que é Jesus, conforme Atos 4,11: lithos, λίθος; veja também Jó 38, Sl 117 e 1Pd 2,4-8).

E a Igreja edificada sobre kefas (Mt 16,18), cobrava dízimo? Também não! Recebia doações (At 2,44-45). Paulo e Barnabé trabalhavam para se sustentar (1Cor 9,12; 2Ts 3,8). Paulo até fez coletas aos domingos (1Cor 16,2), dia de celebrar o Corpo e o Sangue, mas cobrar 10% dos convertidos, não!

Ah! E os sucessores dos apóstolos, será que nem eles? Há escritos da Patrística sobre isso, como o de Justino Mártir, na Primeira Apologia (I,67), em 156 d.C.: “Os que estão na abundância e querem dar, deem livremente, cada um, o que quiser”. E, ainda, Tertuliano, no Apologético, em 197 d.C.: “Existe entre nós uma espécie de caixa comum; ela não é formada por uma ‘soma honorária’, como se a religião fosse colocada em leilão. Cada qual paga uma cotização módica, num dia fixo do mês ou quando achar melhor, se ele quiser e puder. Pois ninguém é forçado; sua contribuição é livre”.

Meu Deus! Doação livre, conforme a generosidade dos fiéis… Ah, isso não durou muito tempo. Certamente, na Idade Média, com aquelas histórias das indulgências, provavelmente até São Francisco cobrava dez por cento, né? Claro que não! A Igreja Católica não cobrou nem cobra dez por cento; a contribuição continua livre, conforme o que cada um quer e pode.

O quinto preceito da Igreja Católica estabelece: “Prover as necessidades da Igreja, segundo os legítimos usos e costumes e as determinações”. Aponta, ainda, aos fiéis a obrigação de prover as necessidades materiais da Igreja, consoante as possibilidades de cada um (CIC 2043).

Meu amigo, uma igreja que se diga cristã não pode ser mercenária, nem gananciosa, muito menos enganadora, nem cobrar dez por cento dos seus membros! Veja o que ensina Jesus: “Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará um e amará o outro, ou dedicar-se-á a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza” (Mt 6,24). E, ainda: “O bispo não deve ser dado a bebidas, nem violento, nem sórdido ou excessivamente apegado ao dinheiro. Do mesmo modo, os diáconos sejam honestos, não de duas atitudes, nem gananciosos” (1Tm 3,3.8).

Assim, “haverá falsos doutores, que introduzirão disfarçadamente seitas perniciosas. Muitos os seguirão e, movidos por cobiça, eles vos hão de explorar” (2Pd 2,1-3).

 

Mario Eugenio Saturno