Cientistas do Instituto do Coração (Incor) descobriram um aliado onde menos esperavam: uma proteína do Trypanosoma cruzi- agente causador da doença de Chagas – apresentou, em coelhos, ação protetora contra aterosclerose. Em humanos, a mesma substância teve eficácia no tratamento de feridas ocasionadas por radioterapia.
A ideia de isolar e utilizar a proteína nasceu de um dado da observação: pacientes chagásicos não costumam sofrer enfarte. A doença evolui cronicamente com o aumento do volume do coração e pode terminar em insuficiência cardíaca. Mas autópsias revelam vasos sanguíneos em invejável estado, sem resquícios de placas de colesterol.
O parasita utiliza a transialidase – nome da proteína que despertou o interesse dos cientistas – para roubar ácido siálico da membrana das células humanas. O Trypanosoma necessita da substância para viver, mas não é capaz de produzi-la sozinho.
No entanto, o ácido siálico da membrana das células humanas também costuma servir como um gancho molecular que bactérias utilizam para se prenderem à parede interna dos vasos. Os cientistas do Incor descobriram que as placas de colesterol estão muitas vezes associadas a colônias de micoplasmas – um gênero de bactérias – que contribuem para a complicação do quadro.
O tratamento com a transialidase em coelhos que ingeriram uma dieta rica em colesterol preservou os animais de problemas vasculares e regrediu danos nas artérias. Pesquisadores acreditam que a transialidase serviu para desprender as bactérias associadas à formação das placas.
Os cientistas descobriram também que, em humanos, a substância evita apoptose (morte) das células e atua como anti-inflamatório, ou seja, é um potente agente curativo para as feridas da pele.

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