O Conselho Regional de Medicina (CRM) de Goiás abriu sindicância para apurar uma denúncia de erro médico no Hospital Garavelo, em Aparecida de Goiânia (região metropolitana de Goiânia). A dona-de-casa Dorcelina Ferreira, 48, internou-se no último dia 21 de fevereiro para a realização de uma cirurgia de correção de períneo. Mas, ainda na mesa de operação, ela ficou sabendo que haviam lhe retirado o útero.
Recebi a anestesia, mas fiquei consciente o tempo todo. E achei estranho quando senti que eles mexiam nas regiões das minhas costelas, próximo ao estômago. Foi então que perguntei e me disseram que estavam retirando o meu útero, conta, emocionada, Dorcelina. Mãe de dois filhos adultos (de 25 e 26 anos), ela se casou novamente há sete anos e há quatro havia iniciado o tratamento para ter mais um filho.
O hospital informou que o responsável pela cirurgia foi o ginecologista Vanderlei Umbelino de Oliveira, que também é diretor clínico da unidade de saúde. A administradora do hospital, Eli Aparecida, disse à reportagem que o procedimento de retirada do útero da paciente teria sido uma decisão técnica do médico e somente ele poderia esclarecer a situação.
Procurado pela reportagem, o médico Vanderlei Umbelino de Oliveira informou, por meio da administração do hospital, que se pronunciará a respeito do caso somente após ser notificado pelo Conselho Regional de Medicina. A administração informou que já abriu processo de investigação interna para apurar os fatos e verificar o que realmente aconteceu.
O presidente do Conselho Regional de Medicina de Goiás, Salomão Rodrigues Filho, afirmou que ainda ouvirá a vítima do erro médico. O primeiro passo será ouvir todos os envolvidos e estamos aguardando que a paciente que se diz prejudicada compareça ao CRM para nos informar a situação. Mas, independente disso, ainda que ela não nos procure, o caso será apurado, disse.
Cauteloso, ele não quis revelar as possíveis sanções ao médico caso as denúncias sejam confirmadas. Seria precipitado de minha parte falar qualquer coisa a respeito do resultado de um processo que acabou de ser aberto. Vamos averiguar os fatos, verificar o que aconteceu, como aconteceu para somente depois tomar as medidas cabíveis, concluiu
Célia Destri, advogada e fundadora da Associação das Vítimas de Erros Médicos, acredita que Dorcelina pode receber uma indenização baseada no exame histopatológico, que o hospital é obrigado a fazer após uma cirugia desse tipo. Tudo que é retirado do corpo de um paciente deve ser analisado através deste exame, comenta Destri. Nele estará comprovado se o útero retirado era saudável ou não. Se o exame apontar que o órgão estava em plenas condições, Dorcelina tem direito à indenização; do contrário, o médico ou o hospital podem alegar que a retirada foi feita para preservar a saúde da paciente.

Troca de prontuários
A explicação mais provável para o erro seria a troca de prontuários. No mesmo quarto que estava internada a dona Dorcelina, havia outra pessoa com indicação para cirurgia de retirada de útero. Acho que a troca das fichas é a única explicação. Tinha uma outra senhora lá que iria fazer a retirada. E quando já estava na mesa, a enfermeira deixou a minha ficha próximo à minha cabeça, à direita. E ele estava com uma outra prancheta e nem foi lá perto da minha cabeça, descreve Dorcelina, que acabou passando pelos dois procedimentos cirúrgicos: a retirada do útero e a correção de períneo (procedimento para reparar uma lesão entre a região do ânus e da vagina).
Considerada uma cirurgia simples, a correção de períneo leva cerca de 40 minutos a 1 hora para ser realizada, segundo o ginecologista Eliezer Berenstein, consultado pelo UOL. Já uma cirurgia de retirada de útero, dependendo das complicações, pode durar mais de duas horas.
A outra paciente em questão era a também dona-de-casa Rosália Pereira de Oliveira. Ela confirma que estava no mesmo quarto que a dona Dorcelina e que, mesmo estando internada para realizar o procedimento cirúrgico, acabou sendo mandada de volta para casa. Se houve erro, eu não sei. Mas remarcaram a minha cirurgia e ainda continuo sentindo muitas dores e quero resolver minha situação o mais rápido possível, declarou.

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