A Covid-19, dentre as duras lições impostas à humanidade, deixou muito claro não ser mais possível postergar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas. Quando instituídos, em 2012, na Conferência Rio+20, seu propósito era substituir os Objetivos do Milênio, criados em 2000, que expiraram com inexpressivos resultados.

Os novos prazos estabelecidos para os avanços na erradicação da miséria, harmonia internacional, sustentabilidade ambiental, redução das disparidades, universalização do ensino e mais saúde terminam em 2030. Restam nove anos, portanto, para se fazer tudo o que não se conseguiu realizar nas duas primeiras décadas deste século.

No cumprimento dessa agenda determinante para a economia e o futuro da Terra, um dos fatores condicionantes é a diversidade, indutora da justiça social, distribuição de renda, inclusão e combate às desigualdades e discriminação. Felizmente, o tema tem avançado no Brasil, inclusive no campo. Segundo o Censo Agro 2017 do IBGE, cerca de 47,9% dos estabelecimentos agropecuários tinham produtores declarados como brancos e 52,9%, pretos, indígenas, amarelos e pardos, com predominância destes últimos (42,6%).

Também se nota aumento, ainda que moderado, das lideranças femininas. As propriedades rurais dirigidas por mulheres representavam 10% das áreas totais das 5,3 milhões existentes no País. Porém, em número de estabelecimentos, as dirigentes já eram 18% do total. Na sucessão familiar, as filhas começam a conquistar mais espaços. A pesquisa “Governança e gestão do patrimônio das famílias do agronegócio”, divulgada pela Fundação Dom Cabral (FDC) e a J. Valério Gestão e Desenvolvimento, mostra que 80% dos empreendimentos ainda são comandados pelos fundadores ou segunda geração. Apenas 16% fazem parte da terceira geração e só 1% são da quarta adiante.

O estudo também apontou que 40% dos negócios possuem um plano de sucessão e que a transição no comando deve acontecer dos pais aos filhos e filhas. Apenas 5% dos participantes avaliam a contratação de um executivo fora do núcleo familiar para gerir o negócio. É interessante notar como ainda é recente, do ponto de vista histórico, a organização empresarial das atuais propriedades agrícolas. É óbvio, à medida que os herdeiros vão estudando, cursando universidades, especialização e pós-graduação, somam conhecimento às experiências dos antecessores, avançando na agenda da diversidade.
 

Nesse contexto, também cabe enfatizar o significado das pequenas propriedades, em especial a agricultura familiar, que continua representando o maior contingente (77%) dos estabelecimentos agrícolas brasileiros, segundo o Censo Agro. O segmento é decisivo para a produção de alimentos. Nas culturas permanentes, responde por 48% do valor da produção de café e banana; nas temporárias, 80% da mandioca, 69% do abacaxi e 42% do feijão.
 

Cabe um alerta: o número de propriedades da agricultura familiar caiu 9,5% no Censo 2017 em relação ao de 2006. Uma das causas disso é que os filhos dos agricultores estudaram e acabaram deixando seus pequenos negócios, passando a trabalhar em estabelecimentos rurais maiores ou em outras atividades. Há, ainda, a reclassificação das unidades e o fato de que algumas cresceram e mudaram de categoria. Há concretos esforços governamentais, notadamente da Embrapa, no sentido de apoiar os pequenos e médios negócios rurais. Porém, é pertinente ponderar que o segmento carece de políticas públicas cada vez mais adequadas e eficazes, principalmente quanto ao crédito e ao seguro rural, pois é decisivo para o agronegócio, a economia e a segurança alimentar.
 

O meio rural evoluiu em diversidade neste século muito mais do que nos 100 anos anteriores. Precisa e deverá continuar avançando nessa agenda, conforme se observa na atitude atual dos produtores e produtoras. A terra é feminina! Mulher, acolhe e supre todas e todos com imensa generosidade e inspira a civilização à prática da igualdade de gênero, direitos e deveres isonômicos e repúdio a todo tipo de discriminação.

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