A influência da aderência do tênis sobre o desempenho no esporte é certamente bastante conhecida, principalmente entre corredores e jogadores de futebol. Em termos gerais, quanto maior a aderência, melhores são os resultados. Até agora, porém, estudos não estabeleciam se o aumento da aderência é sempre positivo ou se ela pode ultrapassar os limites desejáveis.
Os tênis estão sob a ação de dois tipos principais de atrito. Um mantém a aderência ao solo quando a pessoa realiza um movimento para frente. O outro, chamado de atrito rotacional, ocorre quando a pessoa realiza movimentos laterais ou muda de direção. Muitos pesquisadores acreditaram, durante certo tempo, que o atrito frontal quase não exercia efeito sobre o risco de lesões, ao contrário do atrito rotacional.
Essa ideia, no entanto, tem sido difícil de examinar até agora. Por isso, pesquisadores do Laboratório de Performance Humana da Universidade de Calgary criaram um robô provador que usa tênis e realiza movimentos frontais e laterais. Com o ?provador robótico? pronto, foram recrutados centenas de jogadores de futebol de escolas do ensino médio da região, que cederam suas chuteiras. Em seguida, os cientistas devolveram as chuteiras e pediram ao treinador de cada equipe que mantivesse um registro de todas as lesões de perna sem contato que ocorressem ao longo de dois anos. No final, os pesquisadores compararam os níveis de atrito e o relatório de lesões e concluíram que a incidência de lesões e sua gravidade foi mais alta entre os jogadores cujos tênis ofereciam mais atrito rotacional. Por outro lado, os jogadores cujas chuteiras ofereciam um atrito frontal maior sofreram menos lesões. As taxas de lesões foram semelhantes no gramado natural e sintético.
A descoberta foi inesperada, afirmou o especialista em cinesiologia da Universidade de Calgary John W. Wannop, que liderou o estudo. Segundo ele, havia a ideia de que chuteiras com um atrito frontal grande também possuiriam atrito rotacional grande, mas o que se descobriu foi que algumas chuteiras aderem quando os jogadores correm para frente, mas não quando realizam mudanças bruscas de direção – essas foram as chuteiras mais seguras.
Em termos práticos, as descobertas significam que, para uma combinação perfeita entre performance e redução do risco de lesões, o tênis deve possuir um atrito translacional grande e um atrito rotacional relativamente pequeno. É preciso sorte, porém, para encontrar esse tipo exato de tênis, já que as empresas não informam o atrito das chuteiras e provavelmente não têm capacidade para isso, segundo Wannop. Essas características variam de acordo com o tamanho dos usuários e seus padrões de movimento, além de fatores como as condições do campo esportivo. Existem, porém, certas diretrizes gerais a serem consideradas ao comprar um tênis, principalmente para esportes como rúgbi, futebol e basquete, afirmou Wannop. Os modelos com várias travas grandes em forma de dentes ou saliências com aparência de borracha ao longo da sola podem gerar muito atrito rotacional, explica. Portanto, o ideal são travas menores, agrupadas na parte da frente, as quais podem fornecer um atrito seguro, de orientação frontal. Se possível, segundo ele, o ideal é testar o tênis antes de comprar. Caso o pé escorregue ao realizar o movimento frontal ou adira visivelmente ao solo quando girar o corpo, é melhor escolher outro tênis.

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