A promessa é produzir proteína de boa qualidade para a população, gerar renda e, de quebra, proteger o estoque de peixes nativos da pesca excessiva. Para isso, a Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca (Seap) propõe a instalação de 139 mil tanques-rede no reservatório de Três Marias, no Rio São Francisco, onde espera produzir 55,8 mil toneladas de tilápia-do-nilo por ano. Em Furnas, na Bacia do Rio Grande, a expectativa é ainda maior. Cerca de 198 mil gaiolas teriam capacidade anual de 79.318 toneladas. Seria uma ?revolução azul? em Minas, que coleta por ano menos de 5 mil toneladas de peixes de cativeiro, segundo o último dado disponível, de 2004. Está no nono lugar na produção nacional, que soma cerca de 270 mil toneladas/ano. Porém, a meta superlativa do projeto e as boas intenções escondem um risco gravíssimo para a biodiversidade dessas bacias e desconsidera o histórico de fracassos econômicos da atividade no Brasil, especialmente para pequenos produtores.

?A nossa luta é em prol da qualidade da água. Por isso esse projeto nos preocupa muito?, afirma o presidente da Federação dos Pescadores de Minas Gerais, Raimundo Marques Ferreira. Ele se refere ao impacto do excedente de ração e de excrementos de peixes sobre os índices de fósforo na água. Comprovadamente, esse elemento contribui para a proliferação de algas que são decompostas por bactérias, algumas tóxicas, com forte absorção de oxigênio. O resultado é a morte de peixes e o envenenamento da água, como ocorreu no segundo semestre do ano passado, no Rio das Velhas. Nesse caso, a presença das chamadas cianobactérias teria sido provocada pela combinação de uma seca rigorosa, anormal para o período, com a carga de esgoto, de alto teor de fósforo, no rio.

O segundo grande impacto potencial da criação intensiva de tilápias recai sobre a fauna nativa. É ponto pacífico na literatura científica que, na natureza, especialmente em lagos, as tilápias levam enorme vantagem na competição com outras espécies. O escape de exemplares dos tanques-rede, feitos em malha de polietileno, é inevitável. Há muitas causas, como o ataque de peixes carnívoros e outros predadores, o vandalismo, furtos, choques com troncos, enchentes e ventos fortes. O que se pode fazer é adotar medidas para reduzir a freqüência desses acidentes.

nfestação
O tamanho do risco de infestação de tilápias pode ser medido pelo volume da pesca em Três Marias, por exemplo. Cerca de 300 pescadores profissionais retiram do lago cerca de 500 toneladas por ano. É menos de 1% do volume de tilápias adultas que o projeto da Seap pretende coletar anualmente dos tanques-rede. Em Furnas, a desproporção também é grande. Uma pesquisa dos biólogos Gilmar Santos e Paulo Formagio, feita entre 2004 e 2005, com 73 pescadores, no braço da represa formado pelo Rio Sapucaí, apontou uma captura média anual de 74 toneladas, ao passo que a Seap quer produzir na área 15 mil toneladas de tilápias por ano.

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