Desde que o tsunami de lama jorrou da Samarco, em Mariana, rumo ao mar do Espírito Santo, em novembro de 2015, arrasando vilas, plantações, rios e vidas, estudos feitos de forma pulverizada país afora já deram amostras dos estragos do maior desastre ambiental da história brasileira.

Em julho de 2017, por exemplo, a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) concluiu que havia o dobro de ferro, quatro vezes mais alumínio e três vezes mais manganês na foz do Rio Doce, em Linhares (ES), do que existia no local antes do acidente.

Pela primeira vez, no entanto, toda a bacia do rio passará por um estudo de fauna e flora terrestre com objetivo de mapear de forma completa os impactos provocados pelo rompimento da barragem de Fundão.

No total, 34 milhões de m³ de lama se espalharam por 663 km até encontrar o mar de Regência (ES), passando por corredores remanescentes de Mata Atlântica onde habitam mais de 70 espécies de mamíferos, como onças pardas, primatas diversos, raposas e marsupiais, anfíbios e répteis famosos, como o jacaré-do-papo-amarelo.

Responsável pelas ações de Biodiversidade da Fundação Renova, Bruno Pimenta diz que os trabalhos começaram no início deste mês e poderão durar até dez anos. Segundo ele, a fundação – criada pela mineradora para gerir os recursos e executar as ações de reparação na Bacia do Rio Doce – pretende divulgar resultados semestrais de cada etapa. “O primeiro relatório deve sair até meados de novembro”, afirma. A fase inicial se concentra na região de Mariana. Cerca de 200 profissionais participam dos trabalhos.

Por determinação do Ibama, o mapeamento segue o método Rapeld, muito usado na Amazônia e que tem como características principais o monitoramento em larga escala e a eliminação máxima de fatores que podem interferir nos estudos. O método prevê a divisão da terra em parcelas, espécie de trilhas de 250 m, e de transectos, delimitações que variam de 1 km a 5 km, para coleta das amostragens das espécies de plantas e animais.

Bruno Pimenta explica que as informações levantadas serão comparadas com dados de pesquisas feitas antes do rompimento da barragem. “A Bacia do Rio Doce tem grandes empreendimentos hidrelétricos que, para serem instalados, necessitaram apresentar estudos de impacto ambiental. Então esses estudos disponíveis vão ser utilizados para formar uma base de dados que a gente chama de dados pretéritos, que podem ser comparados com os que nós vamos coletar agora. É justamente essa comparação que vai nos dizer o impacto”.

Nas águas

Em junho, a Renova assinou um termo de cooperação com a Fundação Espírito-Santense de Tecnologia (Fest) para monitorar a biodiversidade em cerca de 200 pontos na porção capixaba do rio Doce e da região que vai do entorno de sua foz, em Regência, até Guarapari (ES), ao sul, e Porto Seguro (BA), ao norte. Serão estudados de bactérias a baleias, além de qualidade da água, sedimentos, condições de marés e ondas, manguezais e restingas.

Biólogo faz críticas: ‘É a raposa tomando conta do galinheiro’

O biólogo e pesquisador da Universidade Federal de São João Del Rey (UFSJ) Ricardo Motta Coelho elogiou a escolha do método de pesquisa para o trabalho da Renova na Bacia do Rio Doce, mas criticou a demora para o início das ações, lembrando que se passaram mais de dois anos e meio desde o desastre em Mariana.

Ele participou da elaboração de uma pesquisa para o Ministério Público Federal sobre impactos ao longo da região afetada, cujo relatório foi entregue ao órgão em dezembro de 2017. “Estamos diante do maior desastre ambiental da nossa história, ele persiste e vai persistir por mais de uma década. Muitos problemas ainda vão aparecer”, disse.

Coelho critica também a pulverização das ações da fundação, o que segundo ele dificulta o monitoramento dos órgãos competentes. Ele diz ainda que o estudo de impacto na fauna e na flora peca quando se “coloca a raposa para tomar conta do galinheiro”. “Essas universidades – UFMG, UFSJ e UFES – entraram à reboque da Renova, foram contratadas e não participam da governança das ações. O fato de a academia entrar como contratada, sem dúvida nenhuma, afeta a credibilidade. Milhares de dados que vão para a Renova vão ser filtrados”, disse o pesquisador. Em resposta às críticas, a Renova divulgou nota dizendo que “o desafio técnico para a compreensão do impacto e adoção das medidas reparadoras é imenso, por isso as discussões sobre as técnicas a serem utilizadas e a própria implantação dessas soluções demandaram prazo maior que o esperado”.

A nota diz ainda que a Renova faz parte de “um sistema de 70 entidades e que suas ações são definidas por órgãos como o Ibama, ICMBio, IEF e Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (IEMA-ES)”, entre outros.

 

 

Fonte: O Tempo Online||

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