E o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro foi para… O Ano em que meus pais saíram de férias, de Cao Hamburger. Muita gente ficou surpresa com as duas principais escolhas da Academia Brasileira de Cinema, anteontem à noite, mas não se pode dizer que elas não tivessem sido anunciadas.
Santiago ganhou como melhor documentário, para indignação dos que apostavam em Jogo de Cena, mas João Moreira Salles (e não Eduardo Coutinho) foi indicado para o prêmio de direção, que englobou as duas categorias.
Tropa de Elite ganhou um monte (oito) de prêmios ?técnicos?, sendo a culminação de todos eles o prêmio de melhor diretor para José Padilha, mas O Ano já recebera o prêmio de roteiro. Reproduziu-se, pelo menos em parte, o que já fora a tendência da comissão que apontou O Ano… como indicado do Brasil para uma vaga no Oscar (que o filme não obteve).
A Academia parece ter feito uma divisão, algo esquizofrênica, mas não incoerente, entre ?técnica? e humanismo. Tropa, o filme brasileiro mais falado de 2007, venceu em categorias como fotografia (Lula Carvalho, brilhante), montagem (Daniel Rezende, impactante) e direção (José Padilha – a Academia sacramentou a vitória dele com o Urso de Ouro no Festival de Berlim).
O prêmio de melhor ator para Wagner Moura marcou o que havia de mais humano no filme – a fissura do Capitão Nascimento, a sua fragilidade emocional, que Wagner soube expressar tão bem. Os prêmios de roteiro e filme foram para uma obra de perfil nitidamente humanista.

Graça Alguns prêmios foram engraçados – como o de melhor trilha para Cartola, autor das músicas, mas não, obviamente, da (bela) coletânea que elas formam no documentário que Lírio Ferreira e Hilton Lacerda dedicaram ao grande compositor. Daniel Filho, que dirigiu Renato Aragão em O Cangaceiro Trapalhão, comandou a homenagem a Didi Mocó.
Ele foi emotivo, mas Didi, moleque como sempre, dessacralizou o próprio prêmio com uma piada de mestre – Não desanimem, ele pediu aos indicados que não ganharam nada. Eu demorei 40 anos (e 47 filmes) para ganhar este prêmio.

Qualidade A deixa de Renato Aragão/Didi foi justa porque, em várias categorias, os demais indicados eram tão bons que qualquer um, ou uma, poderia ter vencido. Hermila Guedes foi a melhor atriz, por O Céu de Suely, mas alguém teria reclamado se Carla Ribas (A Casa de Alice) ou Andréa Beltrão (Jogo de Cena) tivessem recebido o prêmio?
Wagner Moura levou, e ele é bom demais, mas por acaso Selton Mello não mereceria o prêmio, por O Cheiro do Ralo? Tão bons eram os concorrentes que isso valoriza ainda mais a disputa (e a vitória).
A festa, propriamente dita, teve bons e maus momentos. A iluminação no palco não era boa, faltou glamour. Certo, já que o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro não é o Oscar. Hollywood é lá.

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