Formiga

Secos & Molhados, um marco da música

Poucas coisas envelhecem tão bem quanto Ney Matogrosso. Uma delas é o disco que apresentou a voz (o corpo, a dança e tudo mais) do cantor. ?Secos & Molhados? é um trabalho irretocável musicalmente. São 13 faixas perfeitas, distribuídas em 31 minutos que sintetizam uma experiência até então inédita para a música brasileira. Depois de quatro décadas de vida, ainda soa impactante. ?Eu ouço hoje e fico impressionado?, reconhece Ney. ?Acho o disco todo muito seguro, pela pouca experiência que tínhamos?. O que faltava em bagagem técnica nos estúdios era compensado com uma banda muito ensaiada. ?Durante um ano, tocamos aquele repertório diariamente?, rememora Ney.
?No segundo disco, tivemos horas e horas de estúdio à disposição e não aconteceu o mesmo brilho, a não ser numa música ou noutra?, compara João Ricardo, fundador do grupo, completado por Gérson Conrad. É dele o nome Secos & Molhados (que aliás o utiliza até hoje) e a ideia original do grupo, formado em 1970. Nascido em Arcozelo, Portugal, ele se mudou para o Brasil em 1964, no auge da influência beatle no país, com a Jovem Guarda. Logo aprendeu a tocar violão e a compor. ?Eu compunha desde muito cedo, adolescente. Era solitário. Adotei musicar poemas até por isso mesmo?, revela. Isso fica claro em faixas como ?Rondó do Capitão?, ?As Andorinhas?, e ?Rosa de Hiroshima?, poemas de Manuel Bandeira, Cassiano Ricardo e Vinicius de Moraes, respectivamente, musicados pelo grupo no primeiro álbum.
Depois de algumas formações, a versão clássica da banda se fechou em 1972. Em maio do mesmo ano, eles registraram o disco em São Paulo, em apenas 15 dias. Lançaram o álbum em um show no Teatro Aquarius, em agosto. Mas a ignição fundamental para o fenômeno Secos & Molhados aconteceu no dia 9 de setembro, quando o Brasil pôde conhecer o grupo em som e imagem, numa aparição em um dos primeiros episódios de um novo programa dominical. Na tela do ?Fantástico?, músicas como ?O Vira? fundiram a cuca do país.
O fim do grupo foi marcado por desavenças profissionais e pessoais até hoje não superadas por eles. ?Tive alguns problemas com a banda. O João queria entrar de guerrilheiro, com uma boina de Che Guevara, e não era isso a ideia que eu tinha do grupo. Me agradava o fato de não ser homem, mulher, qualquer coisa, a ambiguidade. E é uma marca que carrego comigo até hoje, é ótimo, não acho um peso?, declara Ney
Ricardo ainda carrega o nome do grupo e faz shows com o jovem guitarrista Daniel Iasbeck. Como ele frisa, ?a música é minha, então acho que dá para identificar a evolução nestes anos todos daquilo que faço?. Mas ele parece concordar que, 40 anos atrás, a cena musical presenciou um momento mágico. ?Era um disco muito diferente do que se fazia e, ao que parece, ainda é?, diz Ricardo. ?Talvez por isso as pessoas mais jovens busquem inspiração?, concluiu.