Sem a rotina de interagir com os colegas na escola, as visitas aos parentes e vizinhos da mesma idade e, em alguns casos, passando o dia inteiro em casa enquanto os pais trabalham em home office, crianças e adolescentes sentem os efeitos psicológicos e emocionais do isolamento social.

Uma pesquisa do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), baseada em respostas de cerca de 7.000 pais de crianças e adolescentes dos 5 aos 17 anos, mostra que 27% das pessoas dessa faixa etária apresentam sintomas de ansiedade ou depressão em nível clínico na pandemia, ou seja, com necessidade de avaliação profissional. 

Nesse cenário, passado quase um ano do início da pandemia e sem previsão de quando ela terminará, pais estão na berlinda, na dúvida entre fazer concessões a encontros dos filhos com outras crianças para aliviar a tensão emocional e psicológica dos pequenos ou mantê-los isolados para protegê-los do coronavírus. É uma escolha sem certo ou errado absolutos, na perspectiva de psiquiatras e infectologistas, e cada família encontra um equilíbrio próprio para lidar com esse dilema. 

“A ausência de contato social representa uma falta de estímulo para o desenvolvimento de habilidades sociais. No caso das crianças menores, elas envolvem brincar junto e aprender a compartilhar. Nas maiores e adolescentes, passam pelo desenvolvimento de amizades e namoros. Tudo isso deixa de acontecer. Sem dúvida, isso têm um impacto, e essas crianças e adolescentes precisarão se adaptar quando forem inseridas novamente nos grupos sociais”, diz o psiquiatra e professor da USP Guilherme Polanczyk, coordenador do estudo.

O estudo da USP também levantou que:

  • durante a pandemiam 13,4% das crianças e adolescentes sentem-se solitários;
  • 37,4% não têm mais rotina no dia a dia;
  • 33% dormem menos de oito horas por dia;
  • 23,2% dormem após uma da manhã em dias de semana;
  • 80% passam mais tempo na internet;
  • 24%, por outro lado, vivem alguma mudança positiva na família neste período.

Hora de esperar

O infectologista pediátrico Marcelo Otsuka, que já lidou com casos graves de Covid-19 entre crianças, pondera que o melhor local para elas interagirem neste momento é nas escolas, quando as instituições puderem abrir e se o ambiente for devidamente controlado. Neste momento, contudo, ele recomenda que os pais mantenham a proibição a brincadeiras em parquinhos com amigos e visitas a casas dos colegas. “Seguro não é. É muito difícil controlar a interação das crianças, e, a partir do momento em que elas têm interação com outras em um playground, o risco de eventualmente ser contaminada e transmitir para outra pessoa aumenta muito”, alerta. 

A gerente administrativa Renata Bragança, 31, vinha permitindo que o filho, Lucca, de 6 anos, passasse pelo menos meia hora uma vez por semana com dois ou três vizinhos na área de lazer do prédio, sob supervisão estrita dela e sem tirar a máscara. “Antes, ele era super tranquilo. Se estava com o tablet e a internet caía, fazia outra coisa. Agora, fica com raiva, ele está mais irritável. É uma situação angustiante para todo mundo, não sei exatamente o que se passa na cabeça dele”, descreve. Com o novo fechamento de Belo Horizonte, iniciado neste mês devido ao aumento de casos de Covid-19 na capital, Renata pretende manter as visitas ao playground suspensas. 

É exatamente a recomendação do infectologista Estévão Urbano, membro do comitê de enfrentamento à Covid-19 da capital. Ele não condena os encontros entre crianças durante a pandemia, mas pede que eles sejam adiados em momentos de alta dos indicadores epidemiológicos. 

“Não existem estudos que mostrem a segurança do encontro entre crianças em situações de alta transmissão do vírus na comunidade. Neste momento, é melhor pecar pelo excesso. O risco de permitir esses encontros é maior que o benefício”. Além do perigo de crianças eventualmente transmitirem o vírus a familiares, elas próprias podem ser vítimas da Covid-19, embora seja um evento raro. Só em Minas, 33 crianças e adolescentes de até 19 anos morreram com a doença, segundo a Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG). Além disso, 40 outras de até 14 anos desenvolveram Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P), inflamação associada à Covid-19 que pode levar a quadros graves.

Fonte: O Tempo Online

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