Meio Ambiente

Unicef alerta para impactos do El Niño sobre crianças e adolescentes no Brasil

Foto: © Arquivo/Fernando Frazão/Agência Brasil

Uma nova análise do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) alerta que crianças e adolescentes podem sofrer de forma desproporcional os impactos do El Niño 2026–2027. No Brasil, mais de 30 milhões de crianças e adolescentes — seis em cada dez — já estão expostos a dois ou mais riscos climáticos. Desse total, 16 milhões convivem com três ou mais riscos.

Eventos extremos já afetaram milhões de estudantes

Segundo o Unicef, eventos climáticos recentes mostram como os extremos podem interromper direitos fundamentais de crianças e adolescentes. Em 2024, as enchentes no Rio Grande do Sul afetaram a educação de 741 mil estudantes, enquanto a seca extrema na Amazônia atingiu outros 436 mil.

Ao todo, 1,17 milhão de crianças e adolescentes tiveram as aulas interrompidas em razão desses eventos.

O El Niño faz parte de um ciclo natural das temperaturas do Oceano Pacífico equatorial e é caracterizado pelo aumento da temperatura das águas do oceano, o que influencia os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta. O fenômeno ocorre, em média, a cada dois a sete anos.

Com as mudanças climáticas e a degradação ambiental provocadas pela ação humana, as consequências do El Niño têm se agravado a cada novo ciclo. Os impactos também estão relacionados a outros fenômenos meteorológicos, às condições ambientais, às vulnerabilidades existentes e à capacidade dos serviços públicos de se preparar e responder.

Previsão de El Niño muito forte

No Brasil, o alerta ganha urgência diante das previsões mais recentes. Boletim divulgado em 1º de setembro por órgãos oficiais aponta mais de 90% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte no trimestre setembro-outubro-novembro.

Para o período, a tendência é de chuva abaixo da média em grande parte das regiões Norte e Nordeste e acima da média especialmente no Sul. Também são previstas temperaturas acima da média em praticamente todo o país.

O calor e a estiagem podem ainda prolongar condições favoráveis às queimadas em áreas do Centro e do Norte.

Danilo Moura, especialista em Clima e Meio Ambiente do Unicef no Brasil, explica que os dados meteorológicos indicam onde pode chover mais ou menos e onde o calor ou a seca podem se intensificar. Segundo ele, o papel do Unicef é avaliar o que acontece quando esses eventos extremos chegam à vida das crianças.

Uma seca, por exemplo, pode significar falta de água segura, exposição à fumaça e dificuldade para chegar à escola ou ao posto de saúde. Já uma enchente pode provocar o fechamento de escolas, a interrupção da vacinação e a perda da renda familiar.

Para o especialista, muitos desses impactos podem ser reduzidos quando a preparação ocorre antes da emergência.

Crianças estão entre os mais vulneráveis

Por estarem em desenvolvimento, crianças são particularmente sensíveis ao calor extremo, à desidratação, à fumaça, à má nutrição e a doenças favorecidas por alterações de temperatura e nos padrões de chuva.

Ao mesmo tempo, dependem de adultos e dos serviços públicos para ter acesso à água, alimentação, escola, saúde e proteção.

Por isso, o El Niño pode provocar uma cadeia de impactos que vai muito além das anomalias climáticas e atingir crianças e adolescentes por diferentes caminhos.

Saúde

O calor extremo pode aumentar os riscos de desidratação e outros problemas de saúde. Secas e enchentes podem comprometer a disponibilidade e a qualidade da água, favorecer doenças diarreicas e dificultar o acesso às unidades de saúde.

Alterações de temperatura e umidade também podem influenciar a transmissão de doenças como a dengue, ao criar condições favoráveis à proliferação do mosquito Aedes aegypti.

Entre as medidas de preparação estão o fortalecimento da vigilância epidemiológica, com atenção específica às doenças que afetam crianças; a garantia da continuidade de serviços como a vacinação e da atuação das equipes de saúde da família; e o pré-posicionamento de medicamentos e insumos essenciais.

Alimentação e nutrição

Perdas agrícolas, redução da renda e aumento dos preços dos alimentos podem ampliar a insegurança alimentar e a má nutrição. Esses efeitos nem sempre são imediatos e podem aparecer meses depois de uma safra ruim.

Por isso, a preparação inclui fortalecer o monitoramento e a vigilância nutricional, ampliar a detecção precoce e garantir que os serviços de saúde, inclusive em áreas remotas ou isoladas, tenham capacidade para identificar e tratar crianças com desnutrição.

Também é importante garantir insumos nutricionais essenciais antes que a demanda aumente, especialmente nos municípios remotos que podem ficar isolados durante emergências.

Água e saneamento

As secas podem reduzir a disponibilidade de água segura, enquanto as inundações podem contaminar fontes e danificar sistemas de saneamento.

Entre as medidas que podem ser adotadas antecipadamente estão a proteção e o monitoramento das fontes de água, a preparação de planos de contingência para garantir o funcionamento dos sistemas durante eventos extremos e a garantia de insumos para tratamento.

Diante do risco de seca extrema, estratégias comunitárias de armazenamento de água também são consideradas fundamentais.

Educação

A falta de água, a perda da navegabilidade, o calor extremo, a fumaça, as inundações e os danos à infraestrutura podem interromper aulas, alimentação escolar e outros serviços.

As redes de ensino podem revisar os planos de gestão de riscos e preparar alternativas para garantir a continuidade da aprendizagem, como, por exemplo, atividades em casa.

Proteção e renda

Perdas de moradia, trabalho ou produção podem reduzir a capacidade das famílias de garantir necessidades básicas.

Sistemas de proteção social preparados para situações de emergência podem manter ou ampliar benefícios e conectar rapidamente as famílias afetadas aos serviços essenciais.

Os municípios também podem atualizar o cadastro das famílias vulneráveis que vivem em áreas de risco antes da ocorrência de desastres.

Unicef defende preparação antecipada

Para o Unicef, a preparação para o El Niño 2026–2027 não deve se limitar à passagem do atual ciclo, mas contribuir para a construção de uma rede de proteção capaz de responder aos próximos fenômenos e a outros eventos extremos.

Segundo Danilo Moura, esperar uma escola fechar, um posto de saúde ficar isolado ou uma comunidade perder o acesso à água para começar a agir significa chegar tarde.

O especialista afirma que já existe um El Niño forte em curso e que os tipos de impactos que podem atingir diferentes regiões são conhecidos. Para ele, preparar os serviços públicos agora custa menos, permite uma resposta mais rápida e, principalmente, evita que uma emergência climática se transforme em uma emergência para as crianças.

 

Com informações da Agência Brasil