A vacina Calixcoca, desenvolvida pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) para o tratamento da dependência de crack e cocaína, apresentou resultados promissores em testes realizados em camundongos e deve iniciar os testes em humanos nos próximos quatro anos. O anúncio foi feito nessa quinta-feira (28) pelo governador Romeu Zema (Novo) e pela reitora da UFMG, Sandra Goulart, durante a celebração dos 40 anos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), que financia o projeto junto ao Governo de Minas e é cotitular da patente.
Segundo o secretário de Estado da Saúde, Fábio Baccheretti, a Calixcoca é a primeira vacina no mundo voltada ao consumo de crack e cocaína que demonstrou alta eficácia em animais, reduzindo não apenas os efeitos e a dependência das drogas, como também a ocorrência de abortos em camundongos prenhes.
A vacina, desenvolvida com base na molécula sintética V4N2 (calixareno), se diferencia por não conter proteínas em sua composição, o que representa uma inovação no campo das vacinas. Ela atua induzindo o corpo a produzir anticorpos que se ligam à cocaína ainda no sangue, impedindo que a droga alcance o sistema nervoso central e, assim, bloqueando seus efeitos.
Caminho até os testes em humanos
Com a eficácia comprovada em camundongos, o projeto avança agora para a fase pré-clínica, que compreende os trâmites burocráticos e regulatórios necessários para a autorização dos testes em humanos. O pró-reitor de Pesquisa da UFMG, professor Fernando Reis, estima que essa etapa dure até quatro anos. A expectativa é que os primeiros testes clínicos com pessoas ocorram entre o terceiro e o quarto ano do processo, podendo haver prorrogação, caso necessário.
Segundo Reis, apenas uma pequena parte das vacinas desenvolvidas chegam aos testes clínicos. Ainda assim, ele afirma que a equipe está otimista quanto ao avanço da Calixcoca para a fase seguinte.
Caso aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a vacina será utilizada como auxílio no tratamento de dependentes químicos, bloqueando os efeitos das drogas mesmo em casos de recaída. A previsão é que ela seja incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS), inicialmente pelo Governo de Minas e, posteriormente, pelo Ministério da Saúde.
Baccheretti destacou que a vacina também poderá ajudar na redução de doenças associadas à dependência, como tuberculose, além de contribuir para a diminuição de casos de prematuridade em bebês filhos de mães usuárias.
Investimento e patente internacional
O avanço da vacina se deu após a concessão da carta patente nacional pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi) e da patente internacional nos Estados Unidos. Os próximos passos do projeto serão viabilizados por um aporte financeiro de R$ 18,8 milhões, fornecido pelo Governo de Minas. Do total, R$ 10 milhões virão da Secretaria de Estado da Saúde e R$ 8,8 milhões da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, por meio da Fapemig.
Até o momento, o governo estadual já repassou R$ 14,6 milhões em 2024 e prevê o pagamento de R$ 1,69 milhão em 2025, com o restante R$ 2,6 milhões programado para os anos de 2026 e 2027. Outros R$ 500 mil já foram investidos por meio de chamadas públicas da Fapemig durante a fase de desenvolvimento da pesquisa.
A vacina Calixcoca representa um avanço inédito no combate à dependência química, com tecnologia brasileira e potencial impacto no tratamento de milhares de pessoas. Com eficácia comprovada em testes pré-clínicos e apoio financeiro garantido, o imunizante avança rumo à etapa decisiva dos testes em humanos, com a expectativa de se tornar uma ferramenta inovadora no enfrentamento às drogas e seus efeitos sociais e de saúde pública.
Com informações: O Tempo