Uma pessoa morreu a cada três horas no país vítima de um policial militar ou um civil no ano passado. A estatística, apresentada nesta segunda pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mostra que esse tipo de morte – provocada por agente público à paisana ou durante o trabalho – cresceu 37,2% comparando-se 2014 com 2013. No ano passado, foram 3.022 vítimas, contra 2.203 do ano anterior. No mesmo dia que essa realidade veio à tona, as corporações discutiam em Belo Horizonte outro modelo de atuação, ampliando a competência de todas as polícias, previsto na Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 431.

“O número de mortes é muito elevado e nos coloca entre as polícias que mais matam no mundo”, avaliou Renato Sérgio de Lima, vice-presidente do fórum e professor da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo. Em Minas Gerais, o aumento do índice de civis mortos por policiais foi de 95%, fazendo que o Estado ocupe a sexta posição no ranking dos mais violentos.

Comandante-geral da Polícia Militar em Minas Gerais, o coronel Marco Antônio Bianchini disse que a corporação está atenta para a alta letalidade. Para tentar reduzir essas mortes, a corporação está preparando um programa de alerta. “É lógico que qualquer aumento de letalidade por parte dos policiais preocupa. Não passamos a mão na cabeça de ninguém. Se o policial não cumpriu os protocolos e ele acabou vitimando uma pessoa sem que houvesse a necessidade, ele tem que responder por isso”, avaliou o coronel.

Para o especialista em segurança pública Luís Flávio Sapori, a redução do número de mortes por policiais só virá com uma mudança cultural. “Não será uma mudança na estruturação que vai alterar isso”.

Pesquisa

O alto índice de letalidade das polícias brasileiras tem relação direta com a cultura que vigora no país de “bandido bom é bandido morto”, na avaliação de Renato Sérgio de Lima.

Porém, o uso da força por parte das polícias é apoiado por metade da população do país. Em uma pesquisa encomendada ao Datafolha pelo fórum, 50% dos entrevistados aprovavam o uso da violência policial. “O confronto é estimulado e o policial é visto como um herói”, disse Lima.

Cerca de 45% dos entrevistados discordam da afirmação. Porém, outro número revela que a violência acaba provocando medo em vez de segurança. Entre os entrevistados, 62% disseram que tem medo de ser vítimas da violência policial em algum momento.

O pesquisador ainda enfatiza que o país tem um enorme déficit na qualidade das policias. “Falta trabalho de inteligência, há escassez de policia comunitária, dentre outros. Para ele, é preciso “combater a criminalidade e não o criminoso”, argumentou.

Foram ouvidas 1.307 pessoas em 84 cidades com mais de 100 mil habitantes. 

 Silêncio

Os números divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) foram disponibilizados pela Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), que informou, em nota, não comentar os resultados.

O Tempo

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