Um medicamento utilizado há décadas no tratamento de outras doenças pode ajudar a retardar a morte de neurônios associada à doença de Alzheimer. A conclusão é de um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade do Colorado Anschutz, nos Estados Unidos, e publicado na última sexta-feira (19) na revista Cell Reports Medicine.
A pesquisa analisou os efeitos do sargramostim, versão sintética da proteína GM-CSF, responsável por estimular o sistema imunológico. Embora alterações nos neurônios cerebrais possam ter início ainda no começo da vida e se intensifiquem com o envelhecimento, os cientistas observaram que o uso do medicamento reduziu marcadores sanguíneos relacionados à morte neuronal em pessoas com Alzheimer. Além disso, houve melhora em uma das medidas de cognição avaliadas.
Segundo o professor Huntington Potter, autor sênior do estudo e diretor do Centro de Alzheimer e Cognição da Universidade do Colorado Anschutz, o ensaio clínico apresentou mudanças detectáveis tanto em exames de sangue quanto em um teste cognitivo em um intervalo relativamente curto. Em comunicado, ele afirmou que os resultados indicam a possibilidade de interferir em processos biológicos ligados à progressão da doença mesmo após o diagnóstico.
Para aprofundar a análise, os pesquisadores também examinaram dados de pessoas de diferentes idades. Eles constataram que proteínas liberadas na corrente sanguínea quando neurônios são danificados ou entram em processo de morte aumentam progressivamente ao longo da vida. Entre elas estão a UCH-L1, associada à morte neuronal, e a NfL, liberada em casos de lesão dos neurônios. Ambas aparecem em baixas concentrações no início da vida e aumentam gradualmente com o envelhecimento, atingindo níveis mais altos por volta dos 85 anos. Em estágios mais avançados, concentrações elevadas de UCH-L1 estão ligadas a piores desfechos cognitivos.
Os cientistas também identificaram aumento da GFAP, proteína relacionada à inflamação cerebral, a partir dos 40 anos. As concentrações desses marcadores associados à idade foram mais altas em mulheres, embora as razões para essa diferença ainda não sejam conhecidas. Os achados reforçam a ideia de que parte do declínio cognitivo ao longo do envelhecimento está relacionada a processos inflamatórios e à morte gradual de neurônios, mecanismos também presentes no Alzheimer.
No ensaio clínico, o sargramostim foi administrado por um período curto a pessoas com a doença. Durante o tratamento, os níveis sanguíneos de UCH-L1 caíram cerca de 40%, alcançando valores semelhantes aos observados no início da vida adulta. Esse efeito, no entanto, foi temporário e desapareceu após a interrupção do uso do medicamento. Apesar disso, os participantes que receberam o sargramostim apresentaram melhora no Mini Exame do Estado Mental, um dos testes cognitivos aplicados, e essa melhora se manteve mesmo 45 dias após o fim do tratamento.
De acordo com os pesquisadores, o GM-CSF estimula a produção de células do sistema imune tanto na medula óssea quanto no cérebro, além de ajudar a modular a inflamação. Em modelos animais, o grupo já havia observado reversão do declínio cognitivo e redução da morte neuronal após poucas semanas de uso da substância.
Os autores destacam que os resultados ainda são preliminares e não permitem afirmar se o sargramostim é capaz de reduzir de forma sustentada a morte neuronal associada ao Alzheimer ou ao envelhecimento normal, nem se os benefícios dependem do uso contínuo do medicamento. Um segundo ensaio clínico, mais longo e com maior número de participantes com Alzheimer leve a moderado, já está em andamento. Até que esses dados sejam analisados e avaliados por órgãos reguladores, como a FDA, os pesquisadores afirmam que o sargramostim não deve ser utilizado fora das indicações já aprovadas.
Com informações do Metrópoles








