A Ponte Três Irmãos, em Formiga, precisará ser demolida após a conclusão do Parecer Técnico de Inspeção Extraordinária que classificou a estrutura em Nota 0 – Condição Emergencial, o nível mais crítico previsto na ABNT NBR 9452:2023. O documento foi elaborado no âmbito da parceria institucional entre o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Minas Gerais (CREA/MG) e a Defesa Civil do Estado de Minas Gerais, por meio do Programa Rede Solidária Qualificada, em apoio às ações emergenciais da Defesa Civil Estadual.
O responsável técnico pelo laudo é Anderson Costa Couto, voluntário do programa, engenheiro civil especialista em Patologias das Construções – Diagnóstico e Tratamentos, inspetor de pontes, perito em engenharia, professor da área e engenheiro perito da Assistência Judiciária do TJMG, TRF6 e MPMG. O parecer constitui subsídio técnico conclusivo para a tomada de decisões administrativas voltadas à mitigação de riscos e preservação de vidas.
A inspeção foi motivada pelo evento extremo de precipitação registrado em 23 de janeiro de 2026, quando o município contabilizou 211 milímetros de chuva em apenas 24 horas. O volume expressivo provocou a cheia do Rio Formiga, intensificando ações hidrodinâmicas, processos erosivos e instabilização do solo de fundação da ponte, fator determinante para o agravamento do quadro estrutural.
Laudo técnico aponta condição emergencial
De acordo com o laudo, a Ponte Três Irmãos, classificada como Obra de Arte Especial (OAE), apresenta comprometimento severo e irreversível da capacidade resistente. A análise integrada dos parâmetros estrutural, funcional e de durabilidade concluiu que a estrutura atingiu o Estado Limite Último (ELU), caracterizando perda do equilíbrio global e risco elevado e inaceitável à segurança pública.
A classificação em Nota 0 indica que a obra não atende às condições mínimas de segurança, exigindo medidas imediatas para evitar acidentes. O documento destaca que a manutenção da estrutura em operação representa ameaça concreta à integridade física dos usuários.
Recalque do pilar central provocou instabilidade estrutural
O diagnóstico técnico identificou como causa raiz do processo de instabilização o recalque imediato e significativo do pilar central (P2). Esse deslocamento provocou alteração substancial no caminho de cargas originalmente previsto em projeto, gerando incremento anômalo de esforços cortantes e momentos fletores nas regiões próximas aos apoios.

Como consequência, houve superação da capacidade resistente das vigas longarinas, com ocorrência de ruptura frágil por esforços combinados de flexão e cisalhamento (flexo-cisalhamento), fissuração inclinada do tipo brecha, rompimento de concreto e armaduras, deslocamentos estruturais e perda progressiva de estabilidade.
A semiologia observada é compatível com ruptura por esforço cortante não suportado, típica de situações em que há perda de apoio efetivo e concentração excessiva de tensões. O evento hidrológico extremo atuou como fator agravante, potencializando o recalque do pilar P2 e acelerando o colapso local dos elementos estruturais, com evolução para instabilidade global da obra.
Ensaios técnicos complementares reforçaram o diagnóstico. Os testes de esclerometria realizados em seis pontos da estrutura indicaram Índice Esclerométrico Médio Efetivo (IEe) de 36 MPa, demonstrando que a camada superficial do concreto apresenta resistência compatível com os critérios adotados. Entretanto, a avaliação da profundidade de carbonatação, por meio de ensaio colorimétrico com fenolftaleína, revelou avanço da carbonatação por toda a camada de cobrimento das armaduras nas vigas longarinas e no Encontro 2. Isso indica comprometimento do ambiente alcalino de proteção do aço e evolução acelerada de processos corrosivos, compatíveis com idade avançada e esgotamento da vida útil da estrutura.

O conjunto estrutural passou a apresentar comportamento incompatível com o modelo resistente originalmente concebido, com redistribuição não controlada de esforços internos, perda significativa de rigidez global e local, deformações excessivas, fissuração ativa de elevada abertura, exposição de armaduras e corrosão avançada.
Recuperação é considerada tecnicamente inviável
Sob o aspecto funcional, a ponte não oferece condições mínimas de uso seguro, não assegurando estabilidade a pedestres e veículos, sendo tecnicamente inviável qualquer forma de liberação, ainda que parcial ou condicionada.
O parecer conclui que a manutenção da Ponte Três Irmãos em operação é tecnicamente inviável, não havendo viabilidade técnica, econômica ou financeira para intervenções de recuperação, reforço ou reabilitação da estrutura existente, uma vez que tais medidas não restituiriam níveis aceitáveis de segurança, desempenho ou confiabilidade ao longo de eventual vida útil remanescente.
Como medidas recomendadas, o laudo estabelece:
- Manutenção da interdição total da ponte, como medida indispensável à preservação da segurança pública;
• Demolição técnica controlada da estrutura existente;
• Substituição integral por nova Obra de Arte Especial, a ser concebida e executada conforme as normas técnicas vigentes.
Outras intervenções no município
Em complemento, o secretário municipal de Obras, Flávio Passos, informou que a Ponte Santo Antônio também deverá passar por processo de reconstrução. Segundo ele, será elaborado um plano de trabalho a ser encaminhado à Defesa Civil para análise e autorização, etapa necessária para viabilização de recursos destinados tanto à nova Ponte Três Irmãos quanto às demais intervenções estruturais no município.

O planejamento inclui ainda ações na Avenida José Arantes, onde houve comprometimento do solo em decorrência das chuvas intensas. A recomendação técnica já foi formalmente encaminhada à Defesa Civil para avaliação.

A Administração Municipal informa que não há previsão definida de custos ou prazos para a execução da demolição e da construção da nova estrutura. Os valores e o cronograma dependerão da elaboração do projeto executivo, da aprovação junto à Defesa Civil do Estado de Minas Gerais e da viabilização dos recursos necessários para a obra.
Laudo técnico divulgado pela Prefeitura de Formiga, clique no documento a seguir para acessar: Parecer Técnico Extraordinário da Ponte dos Três Irmãos
Alex Silva/UN







