MG tem a primeira suspeita de dengue hemorrágica
Belo Horizonte registrou a primeira suspeita de choque hemorrágico de dengue, forma muito grave e rara da doença, que representa alto risco. Cerca de 20% dos casos resultam em morte, ao passo que na dengue clássica a mortalidade é de um para cada 10 mil. A auxiliar de serviços gerais Nair Batista Silva, de 57 anos, ficou em observação no Centro de Saúde Gentil Gomes, no Bairro Santa Cruz, na Região Nordeste, com sintomas de choque e foi transferida no fim da tarde para Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Nordeste. Ela recebeu assistência, enquanto esperava a ambulância, com aplicação de soro, por via venosa, e ligada ao balão de oxigênio. A experiência com a dengue vivida por Nair mostra que a doença avança não só em número de casos, mas também em gravidade. A Secretaria de Estado de Saúde (SES) já registrou cinco suspeitas de morte por dengue hemorrágica no estado. Dois já foram confirmados e três aguardam resultado laboratorial.
Em Além Paraíba, na Zona da Mata, mais uma suspeita de morte pela doença foi notificada. O vigilante Francisco Lúcio Pernambuco morreu com sintomas que sugerem que ele teve dengue hemorrágica ou leptospirose. ?A partir do momento que um número maior de pessoas estão contraindo a doença há mais probabilidade de termos formas mais graves de dengue, já que a doença se manifesta conforme condições de cada organismo. Para atendermos essa demanda. fizemos muitas capacitações para que os profissionais de saúde reconheçam com agilidade as complicações e iniciem os tratamentos?, afirma o consultor de Vigilância Ambiental da Secretaria de Estado de Saúde, Francisco Lemos.
O surto na Região Nordeste de BH, com cerca de 72% dos casos registrados na cidade, superlotou os centros de saúde da e a UPA. Muitas pessoas procuram os postos com sinais de sangramento nasal e nas gengivas e são avaliadas quanto ao risco de terem desenvolvido a forma hemorrágica. As suspeitas são encaminhadas à UPA Nordeste os pacientes com quadros de maior gravidade são internados. No Hospital das Clínicas, sexta-feira, havia duas pessoas internadas por dengue. A auxiliar de serviços gerais Nair Batista Silva chegou ao Centro de Saúde Gentil Gomes depois de seis dias da doença, com temperatura baixa (33 graus), dedos e pés roxos e pressão em queda.
Depois de atendida, ela ficou na sala de observação recebendo suporte médico até ser encaminhada à UPA Nordeste. De acordo com a médica Cecília Rajão, que é referência na assistência à dengue, da Secretaria Municipal de Saúde (SMSA/), no momento em que a paciente foi transferida ela já apresentava melhora, com aumento da pressão arterial. ?Temos uma suspeita do choque hemorrágico mas não podemos descartar outras doenças que têm esses sintomas. O suporte que a paciente recebeu no centro de saúde foi eficaz. Não temos como preveniras complicações de dengue, mas há maneiras de evitar mortes?, afirma Cecília Rajão.
Nair Batista conta que teve muita resistência em procurar atendimento médico, mas quando começou a ter queda de pressão e ficar com as mãos roxas foi levada imediatamente para o centro de saúde. ?Minhas mãos estavam muito frias, a dor no corpo persistia e quando me falaram que estava com hipotermia, que é a diminuição excessiva da temperatura, fiquei assustada. Mas, aos poucos, estou sentindo que minhas mãos voltaram a ficar com coloração normal e vou ficar internada para melhorar?, conta Nair.
Em uma semana, os números de dengue em BH cresceram 149%, conforme duas atualizações feitas pela SMSA. ?Tínhamos resultados pendentes há 15 dias que foram atualizados. É um processo muito dinâmico. Desde que começou a epidemia no Rio de Janeiro, as pessoas aqui ficaram mais atentas aos sintomas e estão procurando mais os centros de saúde. Isso aumenta as notificações e é um sinal de que a população está alerta?, avalia a médica da vigilância epidemiológica da SMSA Palmira Bonolo.
Dandara Vitória de Paula, de 6 anos, deve ser atendida nesta sábado, novamente na UPA Nordeste. Ela foi avaliada no Centro de Saúde Gentil na sexta-feira, porque estava com sangramento nasal. Passou por exame de sangue, que apresentou resultado satisfatório, com boa contagem de plaquetas. Dandara foi hidratada com soro, via oral. Segundo Cecília Rajão, ela recebeu alta médica mas precisa ser acompanhada. A mãe da menina, Ana Paula Pereira, também está com dengue. ?Tomei todo o soro que eles me deram e não achei que estava com o gosto ruim. Sinto dor no corpo, mas isso vai passar?, confia a menina.
Superlotação
Com o surto de dengue na região, o atendimento na UPA Nordeste aumentou em 50%. A sala de espera está sempre lotada e os leitos ocupados, com os pacientes esperando transferência para hospitais. São assistidas até 330 pessoas por dia. ?Além das doenças respiratórias, estamos atendendo muitos casos de dengue e está difícil andar pela unidade?, diz o gerente da UPA, Jayme Wood. Prostrado e escorado no ombro da mulher, o auxiliar metalúrgico Ailton Gomes esperava atendimento, já que estava no sexto dia da doença e não apresentava melhora. ?Até o meu cabelo dói. Sinto dor por todo o corpo e uma febre persistente. Fui ao Centro de Saúde São Gabriel, às 7h, e só fui atendido às 11h. Quando fui avaliado, decidiram me transferir para a UPA. Já são 15h30 e ainda não vi o médico. Não tenho mais posição para esperar?, lamentou Ailton.







