Formiga

Rótulo de alimento infantil nem sempre mostra verdade

Bolinhos e salgadinhos, assim como outros produtos industrializados, devem ser evitados ao máximo na merendeira das crianças. Nem mesmo a inclusão de vitaminas e minerais nesses produtos os torna saudáveis. Isso porque esses benefícios são neutralizados pela presença de gorduras, açúcares e de sódio (sal) acima do ideal. Pesquisa do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) revela que alguns dos 30 produtos analisados apresentaram teores nutricionais até 100% acima dos declarados na embalagem, o que pode induzir até o consumidor mais atento a errar na alimentação.
Na análise de laboratório, o Idec escolheu 15 marcas de salgadinhos e 15 de bolinhos com grande apelo entre o público infantil, muitos deles com personagens famosos e ainda embalados individualmente para lanche, facilitando a organização da merenda. No quesito açúcar, todos os 15 bolinhos apresentavam níveis de sacarose muito acima do recomendado. O pior produto encontrado foi o muffin SuaviPan de laranja, que se apresenta como sendo ?orgânico? na embalagem, mas concentra quase a metade (19,7 gramas) de açúcares nos 40g da porção do produto. Segundo especialistas, os pequenos devem consumir diariamente, no máximo, entre 28g e 50g de açúcares, dependendo da idade.
Em relação ao sódio, das 15 amostras de salgadinhos do tipo chips analisadas pelo Idec, 13 trazem excesso de sal na sua composição. É o caso, por exemplo, do Cebolitos, que registra 1.070,9mg de sódio em um único pacote, quase a metade do sal que um adulto pode ingerir em um dia (2.400mg) e até quatro vezes mais que a quantidade máxima indicada para crianças maiores até a adolescência, que podem consumir entre 250 a 500mg diárias de sódio. A ingestão excessiva de sal pode levar à hipertensão infantil e contribuir para a obesidade. ?Não é uma questão de gosto nem de adultos chatos querendo regular o açúcar do bolinho das crianças. A alimentação infantil tornou-se um problema de saúde pública. As crianças estão apresentando muito cedo problemas como hipertensão, obesidade, diabetes e complicações cardiovasculares, que antes apareciam somente depois dos 60 anos, na geração dos avós, que tinha pouco contato com alimentos industrializados?, compara Carlos Thadeu de Oliveira, gerente de informação do Idec.
Gorduras saturadas
Já com relação às gorduras saturadas, os piores resultados ficaram com os salgadinhos Ruffles original e Pringles sabor bacon, respectivamente com 4,7g e 3,4g de saturadas por porção de 25g. Crianças entre 4 e 6 anos não devem consumir mais que 16g dessa gordura diariamente. No caso dos Ruffles, portanto, apenas um pacote de 100g vai estourar a cota diária, somando 18,8g, sem contar as frituras do almoço, do jantar e dos outros produtos industrializados consumidos no dia. ?Algumas embalagens trazem 0% de gordura trans ou informam que o salgadinho é assado, e não frito, mas o produto continua carregado de sal e vai fazer mal à saúde de qualquer jeito. Nem sempre os rótulos traduzem o alimento em sua totalidade?, alerta Oliveira.
E nem sempre é possível confiar na tabelas de nutrientes impressas no verso dos rótulos dos produtos. Em 14 dos 30 produtos pesquisados pelo Idec, o nutriente ultrapassou a tolerância de 20% a mais dos dados indicados no rótulo, permitida na Resolução 360/03 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O pior exemplo é o bolinho Nhamy sabor morango, que no rótulo indica ter 0,8g de gordura saturada, mas o teste laboratorial revelou 2,7g. Uma diferença de 237,5%. O bolinho Gulosos também se saiu mal no teste. Na porção de 40g, o sabor baunilha e chocolate indica ter 1,4g de gordura saturada, mas na verdade tem 3,0g, ou seja, mais que o dobro. Já o bolinho Toddynho sabor brigadeiro, tem menor teor de gordura saturada, mas leva bomba na presença de gordura trans (1,91 gramas).
Dos 15 fabricantes de 30 produtos analisados, sete responderam ao Idec. A Pepsico comprometeu-se a adequar a informação nutricional do Doritos Nacho. Já a Pullman alegou que as diferenças entre o rótulo e o verificado em laboratório podem se dar por diferença de metodologia. A Nutrella e a Parmalat afirmaram apenas que a declaração da quantidade de açúcar não é obrigatória. A Laura disse que adota o APPCC, sistema de controle de qualidade de alimentos. A Yoki enviou um laudo de um dos produtos analisados, com valores de gorduras total e saturada que diferem dos encontrados nos ensaios do Idec. Entretanto, o laudo é datado de 2005.