Formiga

Recomendado pela OMS há décadas, plano de parto ainda é desconhecido no Brasil

Autora do blog ‘Dadadá’ e grávida de 6 meses de Francisco, Gabriella Sallit já é mãe de João e é advogada com atuação na área de direitos reprodutivos. Foi através de um post em sua página que as atuais onze mulheres se reuniram para divulgar o plano de parto nos hospitais de BH
Onze mulheres grávidas. Elas querem ser protagonistas do nascimento de seus filhos. Elas lutam para garantir que seus direitos sejam respeitados na hora parto. Elas não aceitam ser submetidas a práticas adotadas indiscriminadamente Brasil afora e sem nenhum respaldo científico. Elas se assustam com o índice de cesarianas praticadas por aqui: 82% na rede privada e 37% na pública – a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda o índice de 15%. Elas sonham alto: querem ajudar a colocar o país no mapa daqueles que são referência em parto humanizado.
Na semana passada se reuniram e decidiram ?começar do começo?. Cada uma delas formalizou o seu plano de parto e os onze documentos serão entregues nas 15 maternidades de Belo Horizonte. O objetivo é impactar essas instituições para uma conduta preconizada pela OMS desde 1986 e que está completamente esquecida por aqui. A administradora Juliana de Souza Matos, 34 anos, grávida de João Vítor, é uma delas. Como já tinha uma visita agendada na maternidade Santa Fé para conhecer a estrutura do lugar, aproveitou a oportunidade para iniciar o mutirão de entrega. ?Quero protocolar o meu plano de parto, falei com a moça que me recebeu. ?Plano de quê??, ela me respondeu e ficou folheando as páginas sem entender do que se tratava. Ela não sabia. Então eu disse que gostaria que fossem entregues ao diretor clínico e que ele repassasse aos profissionais que fazem o atendimento às gestantes. Não senti segurança de que ela irá entregar. Só vou ter confiança se alguém do hospital fizer um contato comigo?, narra.
‘Queremos mostrar que as mulheres têm desejos que têm que ser respeitados. Esse mutirão é uma tentativa de conscientizar as maternidades de que é preciso mudar não apenas as suas estruturas, mas a cabeça de médicos, enfermeiros, neonatologistas e anestesistas’, deseja a mãe de João Vítor.
O desconhecimento não é exclusividade do Santa Fé ou das maternidades da capital mineira. Simplesmente não faz parte da história do pré-natal das mulheres brasileiras. ?Eu acho até engraçado porque tem hospital que pensa que é alguma coisa financeira. As pessoas conhecem muito pouco. O plano de parto serve para conscientizar a mulher de que ela pode se orientar a respeito das opções existentes e definir o que ela deseja. No fundo, é um incentivo para o aumento do número de partos normais?, afirma a presidente da Associação de Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais (SOGIMIG-MG), Maria Inês de Miranda Lima.
Mas o que é afinal?
O documento da OMS ?Care in Normal Birth: a practical guide? (Atenção no parto normal: um guia prático, em tradução livre), preconiza as boas práticas para o parto normal. Para se ter uma ideia da importância do plano de parto, ele é o primeiro item dos processos que a instituição considera como ?claramente úteis e que devem ser encorajados?. No guia, as rotinas são hierarquizadas pela relevância em A, B, C ou D. Resumindo: o plano de parto é o item 1 da categoria A (veja link abaixo).
Elaborar esse documento – que é uma lista que inclui, por exemplo, o lugar onde a mulher quer ter o bebê, quem estará presente na hora do parto, quais os procedimentos médicos que a mulher aceita e quais ela quer evitar para ela e para o bebê, a posição em que deseja parir, se ela quer se alimentar durante o trabalho de parto e até que música gostaria de ouvir ? significa pensar e refletir sobre o assunto. Quando a mulher se dispõe a isso automaticamente começa a buscar informações sobre os tipos de parto e consegue optar conscientemente por aquele que considera melhor. ?A paciente vai intervir até quando isso não oferecer risco para ela ou para o bebê. A função do obstetra é classificar esse risco?, lembra a presidente da SOGIMIG.
Um dado importante nesse contexto é que, ao contrário do que se pensa, a mulher brasileira, no início da gravidez, prefere o parto normal, mais de 70% delas. Ao longo do pré-natal essa vontade é minada pelos mitos fortemente consolidados para se justificar a cesariana no Brasil. O mais assustador, entre eles, é o tal do cordão enrolado no pescoço. ?A insegurança e o medo são tão desproporcionais que as pessoas param de pensar: o bebê respira pelo umbigo?, fala a autora do blog Dadadá e advogada que atua na área de direitos reprodutivos, Gabriella Sallit. Foi através de um post em sua página (clique e veja) que as atuais onze mulheres ? quem se interessar pode participar ? se reuniram para divulgar o plano de parto nos hospitais de BH. ?Queremos causar um rebuliço, fazer as pessoas pensarem sobre isso, provocar desconforto nas instituições e iniciar um diálogo?, afirma.
Há quem desconheça ? incluindo profissionais de saúde ? ou mesmo quem duvide de sua existência, mas pesquisa de 2010 da Fundação Perseu Abramo mostra que uma em cada quatro mulheres sofre algum tipo de violência durante o parto violência obstétrica e qualquer ato ou intervenção praticado sem o consentimento explícito e informado da mulher grávida, parturiente ou que deu a luz recentemente que desrespeita sua integridade física, mental, seus sentimentos, opções e preferências. O conceito internacional abrange também os direitos do bebê e, no Brasil, nem a lei do acompanhante é respeitada.
Pediatra, epidemiologista e coordenadora da Comissão Perinatal da secretaria municipal de saúde de Belo Horizonte, Sônia Lansky afirma que a lei brasileira, de 2005, contempla também o setor privado. ?O acompanhante traz conforto, segurança, tranquilidade, tudo que ajuda a mulher a se sentir bem para liberar a ocitocina, hormônio que é responsável pela evolução natural do parto. Garante que a mulher vai ter acesso a tudo o que ela precisa, que ninguém vai fazer com ela o que não dever ser feito?, diz. Para ela, é uma questão de direitos humanos. ?O acompanhante é quem advoga e defende mulher, é quem vai negociar as práticas e intervenções que poderão ser feitas com ela. Quando a mulher está acompanhada, ela sofre menos maus tratos. Não se pode abrir mão desse direito e ninguém pode refutá-lo sob nenhum aspecto: legal, humano e científico?, completa.
A advogada que atua na área de direitos reprodutivos, Gabriella Sallit, diz que o número de processos de violência obstétrica tem crescido no país. Isso significa que as mulheres estão tomando consciência de seus direitos e lutando contra as irregularidades. No entanto, um dos principais desafios é provar que a violência obstétrica foi praticada. Por isso, Sallit aponta o plano de parto protocolizado no hospital como uma importante ferramenta não só para garantir que os desejos da mulher serão respeitados, mas também para servir como prova em caso de processo. ?O plano de parto é a chance de a mulher ter prova construída?, afirma. Mas se o hospital se negar a receber? ?Notifica via cartório que a maternidade será obrigada a receber. Marque uma reunião com o diretor clínico. Não desista na primeira tentativa?, responde a especialista.