Passagens aéreas, aluguel de carros, divulgação de atividade parlamentar e gastos com escritório político dos 53 deputados federais mineiros consumiram R$7.377.358,54 dos cofres públicos entre fevereiro e 10 de agosto deste ano. A verba faz parte do chamado “cotão” e é destinada a cobrir custos do mandato, que podem ser feitos por débito automático ou reembolso – opção em que os deputados têm até três meses para apresentar os recibos.
O valor varia entre os estados, e no caso de Minas Gerais, equivale a R$36.092,71 mensais para cada um dos parlamentares. Em todo o Brasil, o custo dos políticos chegou a R$82.371.617,22 nos seis primeiros meses de mandato.
Entre os eleitos por Minas Gerais, o maior gasto foi com passagens aéreas – R$1.801.271,61 ou 22% do total da cota parlamentar. E a passagem mais cara paga pela Câmara dos Deputados foi para Misael Varella (PSD). O mineiro foi ressarcido em R$43.968,90 por bilhetes de ida e volta à China. A viagem foi feita entre 12 e 18 de maio deste ano para participar do 12º Congresso da Confederação Internacional das Misericórdias, em Macau, que teve como tema “O papel das políticas sociais e de saúde na proteção à infância, juventude e envelhecimento”.
De acordo com a assessoria de imprensa de Misael Varella, o pedido para a compra de passagem na primeira classe da Emirates Airlines, emitida em 16 de abril, se deveu a questões físicas e de saúde: o deputado tem 1,80 metro de altura, pesa 130 quilos, já foi submetido a uma cirurgia no joelho e sofre de apneia do sono há 11 anos .
“Assim, o intuito da compra da primeira classe era garantir menos transtornos a ele e também aos demais passageiros do voo, uma vez que a viagem é longa e a opção exercida por ele garante maior espaço em sua poltrona”, afirmou a assessoria ao Estado de Minas.
A viagem que partiu de Guarulhos, em São Paulo, até Dubai, e de lá para Hong Kong totalizou 20 horas no ar. Nos voos entre Belo Horizonte e Brasília o parlamentar costuma viajar na classe econômica “em função do tempo reduzido de viagem e de deslocamento menor”, argumentou a assessoria.
Questionada sobre a relevância da participação do deputado no encontro, a alegação é que ele foi debater “soluções para o déficit na saúde pública, em especial a defasagem na tabela SUS de procedimentos e também a grave crise da saúde em Minas Gerais, oriunda da crise financeira pela qual o estado atravessa”.
A divulgação das atividades exercidas na Câmara parece ser uma preocupação grande dos deputados mineiros, que gastaram R$1,24 milhão para propagandear suas realizações. Ato da Mesa Diretora incluiu essa possibilidade de despesa até 120 dias antes da data das eleições municipais ou estaduais, caso o parlamentar seja candidato.
Bilac Pinto (DEM) não poupou em publicidade para seu trabalho: foram R$128 mil gastos neste mandato, dos quais R$126 mil com a contratação de uma agência de publicidade de Belo Horizonte, especializada na produção de vídeos e programas de TV. Os outros R$2 mil foram aplicados na prestação de serviços jornalísticos para divulgação em site da bancada mineira.
Notas fiscais apresentadas à Câmara, com valores entre R$13 mil e R$25 mil mensais, detalham o serviço prestado como produção de material e divulgação de atividades parlamentares em redes sociais e sites na internet.
O parlamentar afirmou ao Estado de Minas que contratou a empresa especializada para fazer todo o trabalho de divulgação em jornais pelo interior do Estado, assessoramento para pronunciamentos e material gráfico e vídeos para as redes sociais. “De certa forma temos que mostrar o que nós fazemos. Aquele modelo tradicional de divulgação da política está sofrendo um processo de transição e temos que nos adaptar para essa nova realidade”, alegou.
A Câmara banca ainda o gasto com o envio de material gráfico pelos Correios. Os mineiros gastaram R$133.503,74, dos quais R$23.127,60 correspondem a postagens de Eros Biondini (Pros). Em um único mês, o deputado gastou R$7.576,59 com serviços postais. O parlamentar alega que é votado em 840 cidades de Minas e muitos eleitores não têm redes sociais, o que justifica a prestação de contas do mandato via carta. “Tenho que prestar contas do meu trabalho. As pessoas cobram com toda razão e mesmo assim não consigo chegar a todos”, argumentou.
Aluguel de carros consome 17% da verba
Como apenas os deputados que ocupam cargos de direção na Câmara têm direito ao carro oficial, os demais dispõem de até R$12.713 mensais para garantir o transporte na cidade de origem ou em Brasília, por meio do aluguel de automóveis.
Segundo levantamento feito pela ONG Ranking dos Políticos, a pedido do Estado de Minas, os gastos com carros já consumiram do bolso do contribuinte R$1.279.970,63, equivalente a 17,35% do total da verba destinada aos mineiros neste ano. Odair Cunha (PT) foi quem mais gastou: R$60.565,99.
O petista apresentou 28 notas de contratos de locação de automóveis como Corolla e HB20 entre fevereiro e junho deste ano em Brasília e Belo Horizonte – segundo consta na prestação de contas do site da Câmara dos Deputados. Em três meses (abril a junho), as notas somaram o limite exato da cota.
Em nota enviada ao Estado de Minas, ele alegou que “o uso é regular e respeita o teto legal. Nosso mandato optou por estar presente nos municípios que representamos em Minas Gerais. Por isso utilizamos os veículos constantemente, sempre a serviço, o que acaba gerando gastos com locação e combustível”. Com gasolina, foram gastos R$29.531,60.
Pouco mais da metade dos parlamentares usou a cota para pagar lanches, almoços ou jantares, mas a fome de 32 deles custou R$34.717,92 aos cofres públicos. Paulo Guedes (PT) encabeça a lista: foi reembolsado em R$3.707,94. Nas notas fiscais de restaurantes em Brasília, Belo Horizonte, Montes Claros e no aeroporto de Confins há pratos com filet mignon, salmão, picanha, carne de sol sertaneja, sucos de frutas como laranja e limão e algumas exóticas, como a pitaya, e refrigerantes.
Sobre o assunto, Guedes alegou que o gasto com alimentação está previsto em norma da Câmara e as notas apresentadas são “modestas” – a mais alta tem o valor de R$140, referente a um almoço com filé mignon, refrigerante e “despesa extra” não identificada.
Questionado se o salário de R$33,76 mil brutos não seria suficiente para seus gastos com comida, o deputado foi enfático: “Não tenho outra profissão, cuido do meu mandato, viajo 3 mil quilômetros todo fim de semana para visitar comunidades. Meu salário é para meus gastos, mas a atividade do mandato demanda todas as naturezas que você pode imaginar”, afirmou. Ele argumentou ainda que há outras categorias de servidores públicos que recebem muito mais e não precisam renovar o mandato a cada quatro anos.
Estreantes nas duas pontas do ranking
Dois estreantes na Câmara dos Deputados encabeçam a lista dos maiores e menores “gastadores” de Minas Gerais: Euclydes Pettersen (PSC) e Hercílio Coelho Diniz (MDB) consumiram R$212.474,38 e R$608,14, respectivamente. O primeiro gastou 348 vezes o valor desembolsado pelo colega de plenário, com itens como divulgação da atividade parlamentar (R$73 mil), consultorias, pesquisas e trabalhos técnicos (R$51,5 mil) e locação de automóveis (R$48 mil).
Se durante a campanha eleitoral Hercílio Coelho Diniz (MDB) não economizou dinheiro – ele gastou R$1,98 milhão para chegar a uma das 53 cadeiras de deputado federal por Minas Gerais –, na Câmara, o político pode se gabar de ser o parlamentar que menos usou a verba disponível para custear o mandato. E ele garante que já apresentou um requerimento na Câmara para devolver os R$608,14 usados para pagar a conta do telefone fixo do gabinete.
“Eu estou usando o dinheiro do meu salário para cobrir os gastos do mandato. Imagino que não é uma medida simpática com os outros deputados, mas avalio que todos deveriam fazer o mesmo”, disse Hercílio, que reconhece ter tomado a medida porque não precisa do salário de deputado para viver. Ele é dono de uma rede de supermercados em Governador Valadares, Ipatinga, Teófilo Otoni, Caratinga e Manhuaçu e tem um patrimônio declarado ao Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG) de R$38,8 milhões.
Já Euclydes Pettersen argumenta que seu mandato é “municipalista”, baseado em muitas visitas às cidades mineiras. “Tem os custos para entender os problemas e depois para divulgar o nosso trabalho de parlamentar”, disse. Com base eleitoral em Governador Valadares, o deputado lembrou que tem uma despesa maior com deslocamento, já que precisa vir a Belo Horizonte para, da capital, seguir de avião para Brasília.
Sobre o gasto de mais de R$50 mil com consultoria, o deputado justificou que ocupa funções importantes na Câmara que demandam assessoria técnica, como cadeiras na CPI de Brumadinho e nas comissões de Agricultura e Pecuária e Relações Exteriores, além de ser o vice-líder do PSC. “Em todas essas funções temos relatorias, requerimentos, preciso de amparo jurídico e ténico para verificar o que é mais correto e eficaz”.
Cotão mineiro
Cada deputado tem direito a uma cota mensal de R$36.092,71 para bancar gastos do mandato. Entre fevereiro e 10 de agosto deste ano, estes foram os gastos de cada um
Euclydes Pettersen (PSC) R$212.474,38
Bilac Pinto (Dem) R$211.710,66
Igor Timo (Pode) R$211.278,74
Leonardo Monteiro (PT) R$208.782,74
Patrus Ananias (PT) R$206.908,19
Misael Varella (PSD) R$202.604,73
Zé Silva (Solidariedade) R$195.883,99
Eros Biondini (Pros) R$192.495,42
Lincoln Portela (PL) R$192.404,07
Domingos Sávio (PSDB) R$192.361,94
Mário Heringer (PDT) R$185.588,77
Zé Vitor (PL) R$185.004,81
Reginaldo Lopes (PT) R$181.324,51
Dimas Fabiano (PP) R$180.359,03
Júlio Delgado (PSB) R$179.470,16
Paulo Abi-Ackel (PSDB) R$178.749,85
Paulo Guedes (PT) R$177.648,44
Odair Cunha (PT) R$171.395,91
Margarida Salomão (PT) R$169.453,70
Padre João (PT) R$165.452,08
Rodrigo de Castro (PSDB) R$158.338,64
Alê Silva (PSL) R$155.765,72
Mauro Lopes (MDB) R$155.466,86
Subtenente Gonzaga (PDT) R$153.480,25
Lafayette de Andrada (PRB) R$148.518,57
Charlles Evangelista (PSL) R$147.243,69
Delegado Marcelo Freitas (PSL) R$142.835,89
Rogério Correia (PT) R$134.797,11
Pinheirinho (PP) R$134.462,51
Fred Costa (Patriota) R$129.864,95
Fábio Ramalho (MDB) R$129.672,22
Marcelo Aro (PP) R$128.803,80
Aécio Neves (PSDB) R$126.962,36
Dr. Frederico (Patriota) R$124.509,36
Áurea Carolina (Psol) R$123.006,78
Eduardo Barbosa (PSDB) R$120.132,85
Diego Andrade (PSD) R$119.780,64
André Janones (Avante) R$115.824,45
Enéias Reis (PSL) R$114.854,23
Stefano Aguiar ( PSD) R$114.018,12
Emidinho Madeira (PSB) R$106.757,07
Lucas Gonzalez (Novo) R$ 97.644,98
Léo Motta (PSL) R$91.917,13
Gilberto Abramo (PRB) R$90.484,14
Franco Cartafina (PP) R$88.386,28
Weliton Prado (Pros) R$83.453,17
Luis Tibé (Avante) R$75.678,74
Newton Cardoso Jr (MDB) R$75.614,03
Vilson da Fetaemg (PSB) R$71.526,32
Greyce Elias (Avante) R$52.821,05
Cabo Junio Amaral (PSL) R$42.754,11
Tiago Mitraud (Novo) R$16.127,80
Hercílio Coelho Diniz (MDB) R$608,14
Fonte: ONG Ranking dos Políticos
Gastos dos mineiros *
Bilhete aéreo ** R$1.638.842,43
Aluguel de veículos R$1.279.970,63
Escritório político R$1.250.595,12
Divulgação do mandato R$1.249.561,18
Combustível R$781.515,20
Consultoria R$449.243,00
Telefonia R$202.698,85
Passagens aéreas ** R$162.429,18
Serviços postais R$133.503,74
Hospedagem R$101.640,22
Táxi, pedágio e estacionamento R$61.386,49
Alimentação R$34.717,92
Passagens terrestres, marítimas e fluviais R$15.078,09
Assinatura de publicações R$11.485,67
Segurança privada R$4.696,99
Fonte: ONG Ranking dos Políticos
* Valores computados entre fevereiro e 10 de agosto
** Bilhetes aéreos são aqueles reembolsados aos deputados. As passagens são emitidas pela própria Câmara
Fonte: Estado de Minas ||








