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Chefe da PM de SP entregou o cargo após citação em inquérito sobre PCC

Foto: Pablo Jacob/Governo do Estado de SP

O ex-comandante da Polícia Militar de São Paulo, coronel José Augusto Coutinho, pediu para deixar o cargo após ser citado em uma investigação da Corregedoria da corporação que apura a atuação de policiais militares como seguranças de supostos integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) ligados à empresa de ônibus Transwolff. A substituição no comando foi oficializada pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) nessa quinta-feira (16).

A saída de Coutinho ocorreu após o pedido de ida para a reserva da corporação. Ele foi substituído pela coronel Glauce Anselmo Cavalli, que se tornou a primeira mulher a ocupar o cargo de comandante-geral da PM de São Paulo. Até então, a oficial chefiava o Centro de Comunicação Social da corporação.

O nome de Coutinho teria surgido no depoimento do sargento Alexandre Aleixo Romano Cezário, preso em fevereiro por fazer escolta ilegal para diretores da Transwolff. A empresa operava linhas de ônibus em São Paulo e teve o contrato rompido pela Prefeitura após operação que apura suspeita de lavagem de dinheiro para a facção criminosa.

Segundo o depoimento, o coronel tinha conhecimento do esquema de escolta ilegal.

Autoridades ligadas à investigação afirmam ainda que o desgaste envolvendo Coutinho aumentou após um promotor do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) prestar depoimento à Corregedoria, trazendo novas informações sobre suspeitas contra o oficial. De acordo com esse relato, ele teria detalhado que o coronel ignorou outro esquema envolvendo PMs e o PCC.

Conforme revelado anteriormente, em 2021, quando comandava as Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), tropa de elite da PM, Coutinho teria sido alertado pelo promotor Lincoln Gakyia sobre o vazamento de informações sigilosas por integrantes da inteligência do batalhão para proteger membros do PCC na zona leste de São Paulo.

Apesar do alerta, o coronel não teria tomado providências, segundo informações apuradas.

O esquema voltou a ganhar destaque durante as investigações sobre o assassinato de Vinícius Gritzbach, delator de policiais e do PCC, executado em novembro de 2024 no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos. Ele mantinha conexões com policiais corruptos e era alvo de escolta ilegal por PMs.

O inquérito policial militar que cita Coutinho resultou na prisão de três policiais e em buscas contra 16 investigados. Em uma das ações, foi apreendido cerca de R$ 1 milhão em espécie.

Entre os investigados ligados ao esquema de escolta ilegal na Transwolff estariam Luiz Carlos Efigênio Pacheco, conhecido como “Pandora”, e Cícero de Oliveira, o “Té”, apontados como elos entre a facção criminosa e o sistema de transporte da zona sul de São Paulo.

A Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou, em resposta ao caso, que não comenta investigações em andamento conduzidas pela Corregedoria. O ex-comandante José Augusto Coutinho não se manifestou até o momento. O espaço permanece aberto.

Segundo a investigação, a descoberta do envolvimento do setor de inteligência da Rota com o PCC teria ocorrido a partir de um áudio em que Marcos Roberto de Almeida, o “Tuta”, apontado como líder da facção, afirma ter pago R$ 5 milhões ao “pessoal da R” para “salvar sua vida” durante a Operação Sharks, deflagrada em setembro de 2020 pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP).

O áudio foi enviado a outro integrante da facção e chegou ao Gaeco em outubro de 2021. Na ocasião, um traficante teria sido ouvido dentro do batalhão da Rota para delatar outros integrantes e policiais corruptos.

O promotor Lincoln Gakyia levou o caso ao então comandante da Rota, Coutinho, cobrando providências. Segundo relatos, o promotor afirmou que o coronel não teria tomado medidas após ser informado.

Transwolff e PCC: contexto da investigação

  • A Transwolff e a UpBus estão sob intervenção da Prefeitura de São Paulo desde abril de 2024, após a Operação Fim da Linha, que apura ligação com o PCC.
  • Os empresários Luiz Carlos Efigênio Pacheco (Pandora) e Silvio Luís Ferreira (Cebola), da UpBus, tiveram prisões cumpridas na operação.
  • Segundo o Gaeco, a Transwolff teria recebido R$ 54 milhões da facção criminosa, oriundos do tráfico de drogas e outros crimes, para participar da licitação do transporte público.
  • As empresas operam linhas de ônibus nas zonas sul e leste de São Paulo e transportam cerca de 700 mil passageiros diariamente.

A saída do coronel José Augusto Coutinho do comando da Polícia Militar ocorre em meio ao avanço de investigações que envolvem suspeitas de omissão e possível conhecimento de esquemas ligados ao PCC dentro da corporação. O caso se insere em um conjunto mais amplo de apurações que relacionam policiais, facção criminosa e o sistema de transporte público na capital paulista, ainda sob investigação da Corregedoria e do Ministério Público.

Com informações do Metrópoles