O Ministério Público Federal (MPF) concluiu, nesta sexta-feira (29), que a morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek foi causada pela ditadura militar. A conclusão consta de relatório apresentado pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), que contestou a versão oficial de que o ex-presidente teria morrido em um acidente automobilístico na Rodovia Presidente Dutra, em 1976.
A aprovação do documento ocorreu na manhã desta sexta-feira, com maioria dos votos do colegiado: foram seis votos favoráveis e uma abstenção. A apresentação do relatório foi realizada durante coletiva no auditório da Procuradoria Regional da República da 3ª Região, no bairro da Bela Vista, em São Paulo (SP).
O evento contou com a presença da presidente da CEMDP, a procuradora regional da República Eugênia Augusta Gonzaga; da professora Maria Cecília Adão, relatora do caso; e da deputada federal Natália Bonavides, integrante da comissão.
A votação que validou o documento estava inicialmente prevista para abril, mas foi adiada para permitir que os conselheiros tivessem mais tempo de análise e para que os familiares de Juscelino Kubitschek fossem previamente informados sobre as conclusões.
O relatório foi elaborado pela historiadora Maria Cecília Adão, responsável pela relatoria do caso dentro da CEMDP. O material reúne mais de 5 mil páginas, entre documentos e anexos, e vinha sendo analisado pelos conselheiros desde abril.
Segundo a comissão, a revisão do caso teve início após um pedido apresentado por Gilberto Natalini, ex-presidente da Comissão da Verdade Municipal de São Paulo, e pelo jornalista Ivo Patarra. A solicitação ocorreu após a retomada das atividades da CEMDP.
Parte das informações utilizadas no parecer já era pública e constava em investigações anteriores conduzidas pelo próprio Ministério Público Federal.
A morte de Juscelino Kubitschek ocorreu em agosto de 1976, durante uma viagem entre São Paulo e Rio de Janeiro. O veículo em que ele estava, dirigido por Geraldo Ribeiro, colidiu na altura de Resende. Tanto o ex-presidente quanto o motorista morreram no local.
Na época, as investigações concluíram que o carro teria atravessado a pista contrária e batido em um caminhão após um possível contato com um ônibus, caracterizando um acidente de trânsito.
Desde então, o caso passou a ser cercado por suspeitas de motivação política, especialmente em razão do contexto da ditadura militar e da atuação da Operação Condor, articulação entre regimes autoritários da América do Sul para perseguição de opositores políticos.
Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade descartou indícios de assassinato e afirmou não haver provas de envolvimento do regime militar na morte de JK.
O caso voltou a ser analisado após a elaboração de um laudo do engenheiro Sergio Ejzenberg, produzido para o Ministério Público Federal. Concluído em 2019, o documento contestou a dinâmica do acidente e passou a integrar as referências utilizadas no novo relatório da CEMDP.
Com base em uma análise técnica e documental extensa, o relatório da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos reabre a interpretação sobre a morte de Juscelino Kubitschek. A conclusão apresentada pelo MPF aponta para a responsabilidade da ditadura militar, contrariando versões anteriores que tratavam o caso como acidente automobilístico.
Com informações do Metrópoles







