Minha conversão ao Catolicismo foi acompanhada pelo meu desvio ideológico para a esquerda; afinal, como permanecer o mesmo depois de ler Atos dos Apóstolos (2,44-45): “Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum, vendiam as suas propriedades e os seus bens, e dividiam-nos por todos, segundo a necessidade de cada um”. Isso foi denominado Koinonia (ΚΟΙΝΩΝΙΑ), comunidade!
Creio que foi o mesmo caminho trilhado por Karl Marx, cujo pai era um judeu convertido ao Luteranismo. Ele se apropriou da ideologia cristã, tirou Deus e a rebatizou com um nome parecido.
A koinonia toma forma com os Padres Apostólicos São Clemente de Roma, Santo Inácio de Antioquia e São Policarpo, espalhando-se pelo Império Romano, impressionando profundamente todos os pagãos.
Um dos primeiros escritos cristãos, a Didaqué, primeiro Catecismo da Igreja, escrita entre os anos 60 e 80, afirmava que o ser humano não é dono, mas tão somente usuário dos bens materiais. Cabe-lhe administrá-los, sem se eximir jamais do dever de socorrer os que pouco ou nada têm: “Não rejeite o necessitado. Compartilhe tudo com seu irmão e não diga que as coisas são apenas suas. Se vocês estão unidos nas coisas imortais, tanto mais estarão nas coisas perecíveis” (Didaqué, IV,8).
Essa época passou, e consolidou-se o entendimento de que o fiel deve sustentar a Igreja de Deus, mas voluntariamente e no que puder e quiser, conforme vemos nos escritos de Justino Mártir, em Apologia (I,67), em 156 d.C.: “Os que estão na abundância e querem dar, deem livremente, cada um, o que quiser”.
E Tertuliano, em Apologético, em 197 d.C.: “Mesmo se existe entre nós uma espécie de caixa comum, ela não é formada por uma ‘soma honorária’, versada pelos eleitos, como se a religião fosse colocada em leilão. Cada qual paga uma cotização módica, num dia fixo do mês ou quando achar melhor, se ele quiser e puder. Pois ninguém é forçado; sua contribuição é livre”.
O Pastor Hermas (IX, 27) registrou que: “os bispos continuamente protegeram os necessitados e as viúvas e sempre levaram vida pura”. Não menos incisivo, São Policarpo destaca que os ministros da comunidade têm por ofício o dever de promover a prática da caridade de Cristo, assistindo aos indigentes da comunidade em suas necessidades religiosas e econômicas (Aos Fil. VI,1).
No século IV, Basílio dirige-se aos ricos com dureza: “aquele que despoja um homem de sua roupa é um ladrão. Quem não veste a nudez do indigente, quando pode fazê-lo, merecerá outro nome?” (Hom. contra a riqueza, 7). “Quem pode remediar o mal dos famintos e, por avareza, não oferece o seu socorro, com justiça, pode ser condenado como homicida” (Hexaemeron, Homilia in fame, 7).
Santo Ambrósio, Bispo de Milão, afirma que, na criação do mundo, a terra foi criada para todos, ricos e pobres (De officiis ministrorum). E, para fechar com chave… boca (stomos) de ouro (crisós), João Crisóstomo pergunta inconvenientemente: “Quem se libertou das próprias riquezas? Da metade dos seus bens? Da terça parte? Ninguém?” (De Mateus, Homilia).
Mario Eugenio Saturno







