Em 1958, enquanto as formas inovadoras idealizadas por Oscar Niemeyer chamavam a atenção do mundo, o engenheiro recifense Joaquim Cardozo desempenhava um papel fundamental na construção de Brasília. Responsável por transformar projetos arquitetônicos considerados desafiadores em estruturas viáveis, ele aplicou soluções inéditas em concreto armado que permitiram a execução de algumas das obras mais emblemáticas da capital federal.
A parceria entre Joaquim Cardozo e Oscar Niemeyer teve início em 1942, durante a construção do Conjunto da Pampulha, e se estendeu por 30 anos. Na Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap), Cardozo chefiava a Seção de Cálculo Estrutural, onde desenvolveu soluções inovadoras para atender às exigências dos projetos arquitetônicos de Brasília. Entre elas estavam lajes nervuradas, pilares de seção variável e fundações projetadas para distribuir as cargas sobre o solo. Cada elemento estrutural representava uma resposta matemática às formas concebidas pelo arquiteto.
Um dos maiores desafios enfrentados pelo engenheiro foi a construção da Catedral Metropolitana. A estrutura é formada por 16 colunas hiperboloides, com 90 toneladas cada, que produzem a impressão de leveza e parecem flutuar sobre o terreno. Para alcançar esse resultado, Cardozo calculou uma solução em que a edificação tocasse o solo apenas por meio de “bases delicadas”. O trabalho exigiu precisão técnica, especialmente porque o concreto disponível na época apresentava resistência cinco vezes menor que a utilizada atualmente.
Os mesmos princípios estruturais também foram aplicados em edifícios como o Palácio da Alvorada e o Congresso Nacional. Pilares invertidos, lajes em balanço e cúpulas autoportantes exigiram cálculos rigorosos para conciliar estabilidade e expressão arquitetônica. Mais do que realizar os cálculos das obras, Joaquim Cardozo participava do desenvolvimento dos projetos ao lado de Niemeyer, ajustando as soluções estruturais até que engenharia e estética alcançassem equilíbrio.
Formado em 1930, após interromper os estudos por 15 anos em razão de dificuldades financeiras, Joaquim Cardozo também construiu uma trajetória na literatura. Poeta, publicou livros, traduziu autores e manteve amizade com Manuel Bandeira. Falecido em 1978, deixou como legado estruturas que permanecem firmes e que continuam a demonstrar a importância de sua contribuição para a construção de Brasília.
Alexandre Bertozzi- Engenheiro eletricista e professor universitá[email protected]







