Ciência e Saúde

Estudo aponta queda de quase 50% na prevalência dos principais tipos de HPV no Brasil após vacinação

Foto: © Tomaz Silva/Agência Brasil

A prevalência dos principais tipos de HPV caiu quase pela metade no Brasil após a introdução da vacinação, segundo resultados da pesquisa Pop-Brasil, considerada o maior estudo sobre a eficácia do imunizante já realizado na América Latina. Os dados indicam uma redução expressiva da circulação dos quatro principais subtipos do vírus cobertos pela vacina, mesmo com a cobertura vacinal ainda abaixo da meta estabelecida pelo Ministério da Saúde.

A pesquisa foi realizada pelo Hospital Moinhos de Vento em parceria com o Ministério da Saúde e analisou amostras coletadas em unidades de saúde entre os anos de 2016 e 2023.

Na primeira fase do estudo, realizada entre 2016 e 2017, foram analisadas amostras de 6.388 participantes não vacinados, de ambos os sexos. Na segunda etapa, entre 2020 e 2023, mais de 10 mil pessoas, vacinadas e não vacinadas, participaram da pesquisa.

Os resultados mostraram que, na primeira fase, 14,98% dos participantes haviam sido infectados por pelo menos um dos quatro tipos de HPV protegidos pela vacina. Já nas amostras coletadas entre 2020 e 2023, esse percentual caiu para 7,95%.

Segundo a médica epidemiologista e líder da pesquisa, Eliana Wendland, o estudo concentrou-se em jovens de 16 a 25 anos por ser a faixa etária com maior prevalência do vírus.

Essa faixa etária é a que tem a maior prevalência de HPV, porque é o início da atividade sexual. Essa faixa etária também foi escolhida porque todo mundo ali já deveria ter sido vacinado.”

Apesar dos resultados positivos, a pesquisa revelou que a cobertura vacinal ainda está distante do índice considerado ideal, de 90%.

Entre as meninas e mulheres participantes, apenas 61,8% haviam sido vacinadas. Entre os homens, o percentual foi ainda menor, chegando a 31,1%.

Mesmo assim, a vacina demonstrou elevada eficácia. Entre as meninas e mulheres, a prevalência dos tipos de HPV cobertos pelo imunizante era de 15,6% na primeira fase da pesquisa, quando apenas pessoas não vacinadas participaram do estudo. Na segunda fase, a detecção desses subtipos caiu para apenas 3,1% entre as participantes vacinadas.

Além da proteção individual, os pesquisadores identificaram um efeito populacional da vacinação, conhecido como “efeito rebanho”.

“Nós também percebemos nas meninas um efeito populacional da vacinação. Mesmo entre aquelas que não foram vacinadas, nós tivemos uma diminuição da prevalência de HPV”, afirmou Eliana Wendland.

Esse fenômeno ocorre porque altas coberturas vacinais reduzem a circulação dos agentes causadores de doenças, protegendo indiretamente pessoas não vacinadas. Entre as meninas e mulheres que não receberam o imunizante, a prevalência dos quatro tipos de HPV protegidos pela vacina caiu para 10,5% na segunda fase do estudo.

Entre os participantes do sexo masculino vacinados, a prevalência dos subtipos do HPV cobertos pela vacina caiu de 13,8% para 4,6%. No entanto, entre os homens não vacinados da segunda fase, não houve redução estatisticamente significativa.

Segundo Eliana Wendland, o resultado está relacionado à baixa cobertura vacinal desse público.

“Esse achado não é inesperado, uma vez que os meninos costumam receber menos incentivo à vacinação contra o HPV do que as meninas, em parte porque o vírus ainda é amplamente percebido como uma causa predominantemente do câncer do colo do útero”, destaca a prévia do artigo que será publicado na revista npj Vaccines.

Outro dado destacado pela pesquisa é que, enquanto a prevalência geral do HPV — considerando todos os subtipos existentes — aumentou de 46,7% para 56,6% entre as duas fases do estudo, os quatro subtipos combatidos pela vacina apresentaram queda significativa, reforçando a eficácia do imunizante.

Os pesquisadores também encontraram evidências de que o atual esquema vacinal adotado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), com apenas uma dose, é eficaz. O estudo não identificou diferença na prevalência do vírus entre pessoas vacinadas com uma, duas ou três doses.

A vacinação contra o HPV foi incorporada ao Sistema Único de Saúde em 2014, inicialmente destinada apenas às meninas. A partir de 2017, os meninos também passaram a fazer parte do público-alvo, com alterações na faixa etária ao longo dos anos.

Em 2024, o esquema vacinal foi reduzido de duas doses para apenas uma.

Atualmente, a vacina é oferecida para todas as crianças e adolescentes de 9 a 14 anos, além de alguns grupos adultos considerados vulneráveis, como pessoas imunossuprimidas, vítimas de violência sexual, usuários de profilaxia pré-exposição e pessoas que já tiveram lesões precursoras no colo do útero.

O HPV, sigla para papilomavírus humano, é o principal causador do câncer do colo do útero, mas também pode provocar câncer em outros órgãos, como pênis, ânus e garganta.

Embora nem todos os subtipos do vírus apresentem potencial cancerígeno, a vacina disponibilizada pelo SUS protege contra os quatro principais tipos oncogênicos.

 

Com informações da Agência Brasil