Em junho último, a Popular Science publicou uma interessante matéria sobre o efeito que os meios eletrônicos de memória têm no cérebro humano. Até algumas décadas atrás, mesmo com agendas, memorizávamos muitos telefones; hoje, mal sabemos o nosso próprio.
Tudo começou com as pinturas rupestres nas cavernas, passando pelas letras da escrita e pelos números, tábuas de argila, pergaminho e papiro, pela imprensa mecânica, pelos meios magnéticos e de silício e pelas câmeras do celular.
Atualmente, há muitos dispositivos eletrônicos externos que nos auxiliam a concluir uma tarefa cognitiva. É o chamado descarregamento cognitivo (cognitive offloading). A utilização de meios externos para memória traz um grande benefício, especialmente por causa da quantidade cada vez maior de informações que consumimos diariamente.
Os pesquisadores que estudam os efeitos da documentação digital concentram-se nas áreas de memória prospectiva (como lembrar um evento futuro), memória de trabalho (para uso imediato) e recordação factual (como lembrar o caminho enquanto dirige).
Quando você documenta informações importantes (como fotografar onde estacionou), o seu cérebro redireciona o processamento de duas maneiras: 1) descartar essas informações da memória de curto prazo, reconhecendo que uma cópia duplicada existe com segurança em outro lugar; 2) realocar a capacidade cognitiva recém-liberada. Em outras palavras, o descarregamento cognitivo alivia a carga mental, liberando a limitada memória de trabalho para outras tarefas.
E quais são os benefícios? 1) Conserva o esforço cognitivo, ou seja, o cérebro gasta menos calorias e reduz o esforço cognitivo; afinal, qual a vantagem de memorizar uns 50 telefones, como fazíamos antigamente? 2) Garante maior precisão dos dados, pois o cérebro humano é propenso a alterações da memória e até alucinações. 3) Promove uma compreensão melhor do que se está fazendo, observando, falando e pensando.
E o que de mal acontece? 1) A capacidade do seu cérebro de codificar e reter essas informações na memória de longo prazo pode ser prejudicada com o tempo, fenômeno chamado de amnésia digital ou “efeito Google”. Quando se pode contar com um registro externo (como anotações, celular ou computadores), investe-se menos esforço mental na codificação interna daquela informação. Isso é chamado de hipótese do esforço de estudo (study-effort hypothesis).
Tomada de decisão prejudicada, uma vez que as informações necessárias não estão no cérebro. 3) Priorização incorreta de informações. Ao armazenar o que é mais importante, o cérebro tem mais espaço para tratar detalhes insignificantes, o que piora os processos cognitivos, já que não se lembra dos dados realmente importantes.
No grupo de projetos de satélites do INPE, tínhamos um engenheiro que anotava tudo. Certa feita, precisávamos de uma informação já resolvida pelo grupo, mas ninguém lembrava. Procurei o escriba e… ele não conseguiu achar nada. Da mesma forma, é preciso encontrar um meio-termo no armazenamento de conhecimento, ou ele será inútil.
Mario Eugenio Saturno








