Antes da popularização dos microchips de silício e das memórias RAM modernas, os computadores utilizaram por cerca de duas décadas uma tecnologia baseada em milhares de pequenos anéis de ferrite. Conhecida como memória de núcleo magnético, ela armazenava dados pela orientação do magnetismo em cada anel e tinha uma característica incomum: a leitura apagava o estado original do bit, exigindo sua imediata regravação.
O sistema utilizava pequenas peças de cerâmica ferromagnética chamadas núcleos.
Cada anel era atravessado por fios de cobre e podia ser magnetizado em uma de duas direções, correspondentes aos valores 0 ou 1 do sistema binário.
Uma de suas principais vantagens era ser uma memória não volátil. Mesmo com o computador completamente desligado, os dados permaneciam armazenados na orientação magnética dos anéis.
A fabricação exigia grande precisão e era realizada de forma artesanal. Trabalhadoras passavam fios por anéis minúsculos sob lentes de grande ampliação. Durante quase vinte anos, essa estrutura foi utilizada nos maiores supercomputadores do planeta.
A leitura dos dados era particularmente peculiar. O circuito forçava o núcleo a assumir uma posição padrão. Se ele já estivesse nessa posição, nada acontecia. Caso estivesse na posição oposta, mudava de direção e produzia um pequeno pulso elétrico em um terceiro fio, chamado fio sensor.
O processo, porém, apagava o estado original do bit, fenômeno conhecido como leitura destrutiva. Para preservar a informação, o computador armazenava temporariamente o resultado e, no milissegundo seguinte, regravava o bit original. Ler e reescrever, portanto, faziam parte de um único processo.
Documentos do Computer History Museum e do MIT Lincoln Laboratory apontam que o primeiro computador a adotar essa tecnologia com sucesso foi o Whirlwind, desenvolvido pelo MIT em 1953. A substituição dos antigos e instáveis tubos eletrostáticos pela memória de núcleo magnético aumentou a confiabilidade dos computadores de grande porte.
Essa robustez foi fundamental para sistemas críticos de defesa militar em tempo real, como a rede SAGE (Semi-Automatic Ground Environment), operada pela Força Aérea dos Estados Unidos. O sistema também pavimentou o caminho para o controle de tráfego aéreo e para os sistemas de reservas bancárias que marcaram o final do século XX.
Antes dos chips de silício, a memória de núcleo magnético permitiu armazenar informações de forma confiável por meio de milhares de pequenos anéis magnetizados. Sua fabricação artesanal e a necessidade de regravar cada dado após a leitura mostram como os primeiros computadores dependiam diretamente das propriedades físicas dos materiais para funcionar.
Alexandre Bertozzi- Engenheiro eletricista e professor universitário. [email protected]






