As temperaturas do Oceano Pacífico Equatorial já atingiram níveis recordes e indicam que o El Niño de 2026 pode alcançar uma intensidade sem precedentes. Dados do monitoramento diário do Climate Reanalyzer apontam que a anomalia de temperatura na região do Niño 3.4 chegou a +3,04°C em 20 de setembro, superando marcas observadas em eventos anteriores.
Temperaturas recordes no Pacífico
O Climate Reanalyzer é uma plataforma online interativa desenvolvida pelo Instituto de Mudanças Climáticas da Universidade do Maine, com base em dados da Agência Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA).
A região do Niño 3.4 é uma das principais áreas do Oceano Pacífico Equatorial utilizadas para acompanhar a evolução do El Niño. O registro de +3,04°C representa, segundo os dados apresentados, o maior valor diário de temperatura já observado nessa faixa do oceano.
A marca também supera o valor registrado durante o pico do El Niño de 2015, considerado um dos eventos mais intensos já observados. Naquele ano, a anomalia chegou a +3,02°C em 19 de novembro, de acordo com o Climate Reanalyzer.
Média mensal é o principal parâmetro
Apesar dos registros diários próximos ou superiores a 3°C, especialistas destacam que a intensidade do El Niño é determinada pela média mensal das temperaturas do Niño 3.4.
José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden, explica que os valores diários registrados entre 2,8°C e 3°C não são utilizados isoladamente para classificar a intensidade do fenômeno. Em setembro, a média mensal da região está em 2,1°C.
De maneira geral, a classificação considera:
- 0,5°C a 0,9°C: El Niño fraco;
- 1,0°C a 1,4°C: moderado;
- 1,5°C a 2°C: forte;
- acima de 2°C: muito forte.
Marengo também ressalta que expressões como “Super El Niño”, “Mega El Niño” e “Godzilla El Niño” não fazem parte da classificação oficial da NOAA. Segundo ele, pelos critérios utilizados pela agência, o fenômeno atualmente pode ser considerado muito forte.
A análise mais recente da NOAA, publicada em 10 de setembro, já apontava para uma intensificação do El Niño e indicava uma probabilidade de 75% de que o fenômeno alcançasse a maior intensidade desde 1950.
Pico deve ocorrer entre o fim de 2026 e o início de 2027
Mesmo com as temperaturas diárias já superando registros de anos anteriores, o El Niño de 2026 ainda não teria chegado ao seu pico.
A expectativa dos climatologistas é que o maior aquecimento do Oceano Pacífico ocorra entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.
No evento de 2015, o pico ocorreu em 19 de novembro, quando a anomalia diária chegou a +3,02°C. Para 2026, Marengo afirma que ainda não há uma previsão específica para os valores das anomalias. A estimativa é de que a média mensal possa chegar a aproximadamente 2,6°C ou 2,8°C, com possibilidade de ocorrência de dias com temperaturas 3°C ou mais acima da média.
A intensidade definitiva do fenômeno dependerá do quanto o Pacífico Equatorial continuará aquecendo nos próximos meses e, principalmente, de como a atmosfera responderá a esse aquecimento.
Especialistas destacam incertezas nas previsões
Os especialistas ressaltam que o comportamento do oceano e da atmosfera é imprevisível e que todas as previsões apresentam algum grau de incerteza.
Ainda assim, a avaliação apresentada é de que não há, neste momento, sinais capazes de alterar significativamente o padrão observado. Segundo o climatologista, as águas mais quentes continuam avançando, enquanto não há sinais de entrada de água fria, algo que poderia ocorrer apenas a partir de março de 2027.
O que é o El Niño?
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento acima do normal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, próximo à linha do Equador. O fenômeno faz parte do ENOS (El Niño-Oscilação Sul), um ciclo natural do clima que apresenta fases quentes, associadas ao El Niño, fases frias, relacionadas à La Niña, e períodos de neutralidade.
O aquecimento do Pacífico modifica a circulação da atmosfera e pode alterar os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta.
No Brasil, os impactos não são uniformes. Historicamente, o Sul tende a registrar aumento das chuvas, enquanto áreas do Norte e do Nordeste podem enfrentar períodos mais secos. O fenômeno também pode contribuir para temperaturas globais acima da média, especialmente durante eventos mais intensos, somando-se ao processo de aquecimento global.
Possíveis impactos no Brasil
Entre os efeitos historicamente associados ao El Niño no país estão:
- aumento das chuvas no Sul, com maior risco de eventos extremos;
- redução das chuvas no Norte e em partes do Nordeste;
- maior irregularidade das precipitações no Sudeste e no Centro-Oeste;
- aumento da frequência de ondas de calor.
Segundo especialistas, um dos principais efeitos esperados é a ocorrência de períodos prolongados de calor, principalmente durante a primavera e o verão.
Mesmo com a alternância entre La Niña, neutralidade e El Niño, os cientistas destacam que o aquecimento global continua sendo o principal fator relacionado às mudanças no clima. Com os oceanos já apresentando temperaturas acima da média histórica, a expectativa é de que os próximos meses continuem registrando temperaturas elevadas em diferentes regiões do planeta.
Com informações do G1






