Em 2001, a crença em uma “superpotência solitária” na América nunca esteve tão forte. Havia uma década, a União Soviética deixara de existir, o Muro de Berlim era uma relíquia negociada aos pedaços por colecionadores, a promessa de uma economia japonesa toyotista global dos anos 80 explodira em uma bolha especulativa, e a China apenas acabara de entrar na Organização Mundial do Comércio.

Dos 281 milhões de norte-americanos, 82% eram brancos, 56%, protestantes, e apenas 4% dos trabalhadores estavam desempregados. As estatísticas pareciam comprovar o “fim da história”, do cientista político Francis Fukuyama, que previa, em 1989, uma sociedade liberal capitalista como o ápice do desenvolvimento econômico e político do mundo, afrontando a tese da dialética de Hegel de um planeta em contínua transformação.

Os atentados de 11 de setembro de 2001 implodiram essa inocência junto com as Torres Gêmeas. Grupos não nacionais, com um gasto ridiculamente irrisório se comparado aos quase US$ 300 bilhões do orçamento militar dos EUA, motivados por ideologia e religião, conseguiram mostrar a vulnerabilidade da superpotência e chamar a atenção para o “choque de civilizações” apontado por Samuel Huntington – contemporaneamente ao texto de Fukuyama –, em que os conflitos ocorreriam nas fronteiras entre diferentes culturas, e não obrigatoriamente entre nações. 

Infelizmente, essa tese foi interpretada de forma enviesada e sob a lente do medo agudizando xenofobia, islamofobia, nacionalismo e securitização das relações internacionais (transformar questões gerais em assuntos de segurança). Os EUA se envolveram em guerras no Afeganistão, no Iraque, na Líbia, na Síria. Russos utilizaram a “ameaça muçulmana” para justificar repressão aos chechenos, assim como os chineses com os uighures, os birmaneses com os rohingyas e infindáveis “limpezas étnicas”.

Em 20 anos, os gastos militares norte-americanos saltaram para US$ 778 bilhões para sustentar essa escalada bélica, ressuscitando a corrida armamentista – inclusive nuclear – com Rússia e China. Até a famélica Coreia do Norte desenvolveu uma bomba atômica operacional nesse ambiente.

O mundo havia mudado. E a América protestante branca ficou menor. A população negra passou de 12,8% para 13,4%, os latinos avançaram de 11% para 18,5%. As correntes derivadas da Reforma encolheram para 42%, e os muçulmanos (mal citados no censo de 2001) passaram a representar 1% dos 332,5 milhões de norte-americanos.

A memória do preconceito aceso no 11 de Setembro foi usada por supremacistas e neofascistas que, sob o discurso de não haver emprego para todos, se lançaram a uma onda interna de terror contra imigrantes e outras etnias e religiões em busca da “grandeza perdida”. Resgatando dos escombros do WTC ódio e medo, em vez da coragem dos sobreviventes.

Fonte: O Tempo

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