Direto aos fatos.

Primeiro: o Executivo não está conseguindo pôr em prática o governo de coalizão.

Segundo: o lulopetismo pensa que o terceiro mandato é continuidade do segundo mandato e não quer arredar mão de velhas bandeiras socialistas, a partir do fortalecimento do Estado-gordo.

Terceiro: o populismo volta a ganhar espaço, ao entrar a passos largos, em espaços de programas governamentais.

Quarto: Lula volta a se considerar o “salvador da Pátria”.

Quinto: a crise brasileira é crônica e o Eterno Retorno do mesmo, figura eternizada por Friederich Nietzsche, aparece por inteiro na paisagem.

Fiquemos por aqui.

Nas últimas décadas, mudanças ocorreram na fisionomia das Nações, mas os velhos cacoetes continuam a desafiar a paisagem institucional. Comecemos pelo quadro partidário. Os partidos, com raras exceções, transformaram-se em massas pasteurizadas, sem cor e cheiro. As ideologias, que haviam padecido um arrefecimento, a partir da queda do Muro de Berlim, em 1989, tentam o soerguimento e acirram a polarização em certos países.

O esforço pelo reavivamento ideológico esbarra na ineficácia dos programas econômicos e das necessidades primárias de certos territórios para suprir as demandas de suas gentes. A China vive um capitalismo de Estado. A Rússia atravessa um desastrado ciclo econômico.

Portanto, as desgastadas batalhas do socialismo, como a luta de classes, recolhem suas bandeiras, dando lugar a uma “social-democracia”, adaptada às conveniências de cada país. Ao Brasil, resta trilhar essa via e desfazer a crença de que o terceiro mandato de Lula deve ocorrer sob o império do “mando, faço ou arrebento”. (Nos tempos da ditadura, o general Figueirdo, falando sobre a abertura, disse: “É para abrir mesmo. E quem quiser que não abra, eu prendo. Arrebento. Não tenha dúvidas”).

O Congresso, mesmo sendo atendido com a entrega de ministérios aos partidos, não cede ao desejo de dar a última palavra. Assim, o Executivo acaba se tornando refém do Legislativo.

Medidas populistas, como a de abrir o crédito e arrebentar a boca do balão, ganham aplausos das massas em um primeiro instante, mas provocam arrepios e apupos, mais adiante, quando seus efeitos desabam sobre o teto do Estado. Mais parece um suicídio no longo prazo.

Luiz Inácio ainda não internalizou o fato de que não é mais o Lula do passado. Pela lógica do tempo, teria ficado mais maduro. Na estética, ganhou muitos cabelos brancos, mas conserva as mesmas falas, não dando trela às correntes que batem bumbos na sua orquestra. Deveria vestir o manto do maestro principal que dirige a orquestra do país repartido, onde grupos atiram adjetivos ferozes uns contra os outros.

Não adianta querer passar uma borracha nos volumosos acervos da crise. Que abriga, em suas vertentes, desajustes estruturais, cuja solução carece de denso esforço para melhorar os índices de educação dos contingentes sem acesso ao saber, à saúde, à alimentação, etc. O Brasil deve transformar a pirâmide social em um losango, com a base social pulando andares para chegar ao meio.

As mazelas geradas pelo não cumprimento de compromissos fundamentais acabam por afastar a sociedade da esfera política, gerando imensos vácuos no meio social.

Grandes mudanças precisam ocorrer nas máquinas governativas. O Estado carece reduzir seu papel como fonte de direitos e como arena de participação. Como se explica a criação de mais ministérios apenas para satisfazer estômagos já cheios dos partidos? Um governo assentado na decência e no respeito não adotaria as práticas condenáveis de cooptação.

Pinço, aqui, reflexão feita por José Murilo de Carvalho, que acaba de nos deixar, a propósito da questão. Não podemos deixar ocorrer o deslocamento da Nação como principal fonte de identidade coletiva. Quando o Estado tem seu papel diminuído em detrimento de mecanismos de controle, o que se pode esperar é um impacto sobre os direitos políticos dos cidadãos.

O liberalismo renovado é o pano de fundo para ancorar o mercado como mecanismo autorregulador da vida econômica e social, e, por consequência, no próprio papel tecnoburocrático do Estado. Sob esse prisma, o cidadão encarna o perfil do consumidor intensamente preocupado com questões materiais e sensível a sentimentos cívicos.

Se assim não for, estaremos condenados a padecer do castigo de Sísifo, que jamais conseguirá depositar a pedra no topo da montanha, tarefa de seu cotidiano na eternidade. Ou vermos, sob intensa angústia, a ampulheta do tempo retornar ao ponto de partida, fazendo-nos enxergar o que vimos ontem, assistimos hoje e veremos amanhã.

A crise brasileira não recuará sob uivos de massas indignadas, demandas não atendidas, promessas mirabolantes, espadas de papel, populistas de circunstâncias e super-heróis confiando em meia dúzia de slogans. Urge dar densidade ao lema “reconstruir o país”.

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