Um jogo que estimula o suicídio de adolescentes, iniciado na Rússia, atravessou a Europa e pode ter chegado ao Brasil. É o Blue Whale Challenge (Desafio da Baleia Azul), que chama a atenção de médicos, psicólogos e pais ao redor do mundo.

Enquanto as autoridades russas contam nos últimos seis meses mais de 150 casos em que adolescentes se mataram após participar desse jogo macabro, o Brasil começa a ter os primeiros sinais de que a prática cruzou o oceano para encontrar vítimas locais.

Pelo menos dois casos registrados na terça-feira (11) em duas cidades diferentes do Brasil podem estar relacionados ao jogo.

Na Paraíba, a polícia investiga denúncias que envolvem alunos de uma escola de João Pessoa. De acordo com o coordenador do Centro Integrado de Operações Policiais da Paraíba (Ciop), coronel Arnaldo Sobrinho, os estudantes já teriam realizado “tarefas” de automutilações previstas no Desafio da Baleia Azul – são 50 desafios, um a cada dia, sendo o último desafio tirar a própria vida.

Já na cidade mato-grossense de Vila Rica, a 1.276 quilômetros da capital Cuiabá, uma adolescente de 16 anos foi encontrada morta em uma lagoa. As primeiras informações colhidas pela polícia junto a parentes da vítima apontaram para a participação dela no mesmo jogo virtual. Se confirmada a relação, a morte é a primeira no Brasil envolvendo o Desafio da Baleia Azul.

Depressão e suicídio

Os dois casos reacenderam o debate envolvendo depressão e suicídio entre jovens no Brasil. A depressão atinge 300 milhões de pessoas em todo o mundo, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) – só entre 2005 e 2015 esse número subiu 18%. Os dados são ainda mais alarmantes quando se fala em suicídio: cerca de 800 mil pessoas tiram a própria a vida a cada ano no mundo, sendo essa a segunda principal causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos.

Ainda conforme apontam dados da OMS, o Brasil ocupa a oitava posição entre os países com mais registros de suicídio no planeta. Dados de 2012 mostram que 11.821 pessoas tiraram a própria vida no país, sendo 9.198 homens e 2.623 mulheres. O Brasil só aparece atrás de Índia (258 mil óbitos), seguido de China (120,7 mil), Estados Unidos (43 mil), Rússia (31 mil), Japão (29 mil), Coreia do Sul (17 mil) e Paquistão (13 mil).

Ainda no que diz respeito a suicídio no país, o dado mais recente do Ministério da Saúde é de 2014 e dá conta que 10.600 pessoas tentaram o suicídio – uma taxa média de 5,6 por 100 mil habitantes, quase metade da média mundial (11,4 por 100 mil). O grupo de risco entre brasileiros está na faixa etária entre 15 a 29 anos. As principais causas de quem tira a vida no país estão relacionadas a transtornos mentais como depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia, ou a dependência de drogas.

De acordo com especialistas, o que o Desafio da Baleia Azul faz é servir como estopim para jovens que já enfrentam problemas psicológicos e emocionais.

O jogo

No começo, as tarefas dadas aos adolescentes são mais simples: desenhar uma baleia em uma folha, passar a noite em claro ouvindo música triste ou vendo filme de terror. Depois, elas vão ficando mais perigosas: os participantes são ordenados a tatuar uma baleia no braço, feita com uma faca ou uma lâmina de barbear.

Entre as tarefas, eles também são comandados a insultar os pais, se mutilar nos lábios e, enfim, no 50º desafio, atentar contra a própria vida.

Os participantes dessa prática cumprem uma tarefa por dia. A lista do que fazer é entregue aos poucos por uma espécie de tutor, quase sempre o administrador de uma página secreta no Facebook. A todo o momento, eles são avisados de que este é um jogo sem volta.

Na Rússia, ao menos uma pessoa foi detida por envolvimento nesse esquema suicida. Em alguns casos, quando os adolescentes chegaram à reta final dos desafios, eles trocaram a foto de capa do perfil na rede social por uma imagem de uma baleia azul.

Ameaças

Levantamento feito pelo Tecmundo mostrou que dados pessoais disponíveis na Internet alimentam criminosos virtuais que lançam mão de iniciativas como o Desafio da Baleia Azul. Em tom de ameaça, eles usam as informações para cooptar participantes entre crianças e jovens – muitas vezes essa busca por vítimas se dá justamente em sites e grupos que abrigam pessoas com depressão e outros problemas psicológicos.

Conhecido como ‘curador’, o controlador do jogo envia diariamente para os participantes, ao longo de 50 dias, sempre às 4h20, uma mensagem com um determinado desafio. A prova de que o desafio foi cumprido deve ser postada nas redes sociais do jogador. Vários desafios envolvem majoritariamente automutilação. A 50ª e última tarefa é uma só: tirar a própria vida.

As primeiras notícias a respeito do Desafio da Baleia Azul surgiram após uma reportagem de 2016, do jornal russo Novaya Gazeta. Segundo a própria investigação da publicação, grupos secretos inseridos na rede social VKontakte estavam sendo espaço de persuasão de jovens para tirarem a própria vida, exercendo pressão psicológica em meio a aventuras sinistras. O jornal estimou que mais de 100 mortes poderiam ter relação com o desafio somente na Rússia.

No Brasil, há dezenas de grupos que defendem o acolhimento a pessoas com depressão e o combate ao Desafio da Baleia Azul. Entretanto, há relatos nas redes sociais de que esses mesmos grupos vêm sendo invadidos por entusiastas e controladores do jogo.

Julgamentos

Mortes de participantes de desafios online não são mais incomuns até mesmo no Brasil. Em outubro do ano passado, um jovem de 13 anos fã de “League of Legends” morreu após ser desafiado por outros jogadores do jogo chamado “Choking Game” ou “Jogo do Desmaio”. A morte dele acabou sendo transmitida ao vivo para os demais participantes.

Para o psiquiatra Neury José Botega, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), um dos erros é a tentativa de banalização dos mecanismos que alguém possa usar para chamar a atenção de outras pessoas.

A falta de discussão acerca do problema é um dos obstáculos a serem superados, segundo a ONU. “A prevenção não tem sido tratada de forma adequada devido à falta de consciência do suicídio como um grave problema de saúde pública. Em diversas sociedades, o tema é um tabu e, por isso, não é discutido abertamente”, informou a entidade em comunicado.

À Agência Brasil, a coordenadora da Comissão de Combate ao Suicídio da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Alexandrina Meleiro, comentou que é preciso falar mais sobre o assunto, reduzindo o acesso a meios de execução do ato, acompanhado de ajuda profissional. Por fim, a atenção básica de saúde precisa fazer a sua parte, o que ainda não ocorre no país.

Campanha

Na França, o temor de que esse jogo viralize entre adolescentes fez o Ministério da Educação enviar e-mails para todos os diretores de escolas, para colocar as unidades em estado de atenção. Por lá, uma campanha foi iniciada chamada #bluewhalechallenge foi iniciada nas redes sociais. “Nenhum desafio merece que você arrisque sua vida”, diz um tweet do governo francês.

Suicídio é tema de seriado

Além do jogo macabro, o suicídio está sendo abordado em uma série que virou “febre” no Netflix, o 13 Reasons Why, baseada no romance Thirteen Reasons Why, de Jay Asher. É a história de um estudante que encontra em casa uma caixa contendo sete fitas cassete gravadas por uma colega que tinha se matado. Nas fitas, ela explica a treze pessoas como eles desempenharam um papel na sua morte.

Especialistas advertem que adolescentes são vulneráveis a armadilhas e à depressão, porque estão sofrendo a pressão de sair da infância, das descobertas da vida afetiva e da sexualidade. “Adolescentes precisam de supervisão, o que não significa vigilância”, explica Valeria Christina de Souza, psicóloga especialista em psicoterapia cognitivo-comportamental.

Para a psicóloga Any Carolina Ribeiro Silva, do Colégio Novo Tempo, o seriado chegou muito forte entre adolescentes. “Tanto o seriado e o jogo, ambos têm a temática do suicídio, isso deixa claro o quanto eles (os jovens) não estão sendo ouvidos, estão sendo negligenciados, precisando de afeto e ajuda”.

Valéria frisa que é preciso ficar atento ao comportamento. “Mudanças na alimentação, no sono, isolamento, dificuldade em se concentrar, falar ou pensar com clareza, referir sentimentos de desesperança, culpa, angústia e falar em ir embora”.

 

Fonte: Com portais de notícia ||

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