No início do mês de janeiro, o repórter Marcelo Machado, do site Globo Esporte, soltou em primeira mão uma notícia importante sobre os bastidores do Atlético: ?maior credor do clube, o ex-presidente Ricardo Guimarães concede moratória até julho de 2012 e vai receber 15% do valor de cada venda de atleta feita pelo Galo?, dizia a matéria.
O Globo Esporte apurou que o entendimento já foi aprovado pela comissão de patrimônio do Conselho Deliberativo do clube e que faltavam apenas a elaboração do contrato e a assinatura do mesmo pelo presidente Alexandre Kalil. A partir do momento em que o acordo estiver vigorando, o Atlético terá de pagar a Ricardo Guimarães 15% do valor líquido que sobrar para o clube em cada venda de atleta.
Maior credor do Atlético, o ex-presidente concedeu moratória até julho de 2012, ou seja, até esta data o valor da dívida ficará congelado, sem a incidência de juros e correção monetária. A partir de julho de 2012, o saldo devedor será corrigido pela taxa Selic. E, além dos 15% líquidos de cada venda de atleta, o Atlético terá de pagar mensalmente R$ 200 mil a Ricardo Guimarães.
Contatado pela reportagem do Globo Esporte, o presidente do Conselho Deliberativo do Atlético, João Batista Ardizone, confirmou o acordo. ?O Kalil (Alexandre, presidente) chegou a um entendimento com o Ricardo (Guimarães, ex-presidente e credor) e encaminhou essa proposta à comissão de patrimônio do Conselho Deliberativo. A comissão examinou o assunto, entendeu que o acordo era bom para o Atlético e aprovou?, afirmou Ardizone.
Ricardo Guimarães presidiu o Atlético de 2001 a 2006 e também conseguiu eleger o sucessor, Ziza Valadares, que assumiu a presidência em 2007 e renunciou no ano seguinte.
Em todo o período, o Atlético firmou aproximadamente cem contratos de mútuos com Ricardo Guimarães, cuja família é dona do banco BMG. Os empréstimos ao clube foram feitos por meio da pessoa física do empresário e também por uma empresa da qual ele é um dos cotistas, a EGL Empreendimentos LTDA.
Uma auditoria independente contratada pelo Atlético apontou que, entre 2000 e 2007, o clube teve um prejuízo operacional de R$ 135,3 milhões. Os resultados em campo nesse período não foram menos desastrosos.
Durante a gestão de Ricardo Guimarães, o Atlético foi rebaixado no Campeonato Brasileiro de 2005 e conquistou a Série B no ano seguinte. O último título conquistado pelo clube foi o Estadual de 2007, quando o sucessor Ziza Valadares era o presidente.
A entrada de Ricardo Guimarães no Atlético
?Esse banqueiro nascido em berço de ouro, que se diz atleticano, não serve o Atlético, ele se serviu do Atlético. Esse rapaz fez no país uma corrupção muito grande, no Congresso Nacional, na Câmara Federal, envolveu alguns engravatados do país e fez uma lambança muito grande em benefício do BMG, que passou a atender os aposentados quatro meses antes do Banco do Brasil, da Caixa e de outros bancos de grande porte?, conta o indignado Manfredo Palhares, que aponta as intenções do banqueiro em relação ao Atlético. ?Ele entrou no Atlético Mineiro, convidado por uma quadrilha que lá já estava, com a finalidade de tomar o shopping do clube (Diamond Mall). Depois que ele arrebentou o Atlético, levou o clube para a Segunda Divisão, nossa maior humilhação, ele ainda se envolveu nessas negociatas?, diz o conselheiro.
Para Manfredo, Guimarães foi um presidente ausente. ?Ele fez uma lambança de seis anos no Atlético. Não ganhou coisa alguma. Contratou errado, porque ele não aparecia no clube. Ele era presente com Marcos Valério, José Dirceu, José Genoíno, essa turma toda. Com as pessoas do Atlético não; ele mal ia ao campo de treinamento?, ataca Palhares, que se indigna com a postura do ex-presidente. ?O Atlético foi entrando em decadência e, ao invés dele patrocinar o clube como ele fez com o Vasco na época, ele passou foi a lavar dinheiro dentro do Atlético, cometendo crime de usura, na pessoa física. Se ele tivesse emprestado dinheiro ao clube como pessoa jurídica (BMG), seria até aceitável. Mas lá em 1996, o banco dele protestou o Atlético. Quando ele chegou ao clube, ele já sabia do comprometimento financeiro do Atlético?, aponta.
Manfredo Palhares denunciou as negociatas de Ricardo Guimarães ao Ministério Público, Receita Federal e Polícia Federal, mas as investigações não avançaram, porque o ?clube estava blindado?, como enfatiza o conselheiro, que informa o fato de Ricardo Guimarães ter ascendido ao Atlético através do presidente antecessor, Nélio Brant, que foi tema do capítulo anterior.
?O pior presidente?
Manfredo Palhares não titubeia ao taxar Ricardo Guimarães como o pior mandatário do clube na história. ?Eu tenho mais de 70 anos e o Atlético tem uma história centenária. Ele conseguiu ser o pior presidente, dentro e fora de campo?, ressalta Palhares, que não deixa de lamentar a postura do Conselho Deliberativo do Atlético. ?A maioria do Conselho é como esses contratos de empréstimo: é podre. A maioria é ?vaquinha de presépio? e é facilmente manipulada, assim como ele conseguiu manipular o Congresso e a Câmara Federal?, ataca.
O conselheiro denuncia que no ano de 2002, Ricardo Guimarães teria se beneficiado com a venda do volante Gilberto Silva, então campeão do mundo pela Seleção Brasileira. ?Ele comprou um terreno onde hoje é a Cidade do Galo com o dinheiro do Gilberto Silva e colocou em seu nome e de sua esposa. Você vê que o interesse desse tipo de gente é ter coisas, ter poder?,diz.
A dívida divulgada pela matéria do Globo Esporte – R$ 94 milhões – também é contestada por Manfredo Palhares, que se baseia em uma auditoria realizada no ano de 2005, por Alberto Lima Vieira.
Na época, ainda presidente do Atlético, a dívida do clube para com Ricardo Guimarães que constou das demonstrações financeiras de 31/12/2004 pelo saldo de R$ 23.818.373,35 atingiu, no mesmo balancete de 30/09/2005, o valor de R$ 40.012.372,70 – um incremento de 67,99% em apenas nove meses.
Baseando-se neste montante, o Conselho Fiscal estimou na ocasião que a evolução da dívida do Atlético com seu presidente, em 4 anos (até dezembro de 2009), poderia atingir a casa dos R$ 130 milhões, levando-se em consideração somente os acréscimos com juros de 2,35% ao mês sobre a dívida corrente, e perfazendo uma situação de que o clube não mais recorreria à empréstimos pessoais junto à Guimarães neste período. ?O analítico do Alberto Lima Vieira explicita isso bem, temos tudo isso em documentos. Isso era tão podre que o Ricardo não queria que entrasse a parceria do shopping, pagando os aluguéis das lojas com a percentagem mensal. Ele evitou que esse dinheiro entrasse para poder investir o dele. Ele quer o Diamond Mall?, reitera.
Manfredo diz que a tal negociação divulgada recentemente é nebulosa e podre. ?Mais uma vez ele prejudica o Atlético. A partir do momento que o BMG patrocina o clube, ele está o prejudicando, fazendo com que ele (clube) não receba dinheiro de outros parceiros. Tudo que se faz lá é nebuloso. O cara protestou e executou o Atlético (em 1996) e depois vai lá e injeta uma fortuna numa instituição que não tem dinheiro. Ele deveria ter sido caçado pela Justiça, pois ele cometeu um crime público. Ele só investiu no Atlético porque lá tem o patrimônio do shopping. Por que ele não investiu no Siderúrgica, no Villa Nova? Bota dinheiro nesses clubes, que faça um clube pra ele?, lamenta Palhares, que revela ter havido uma nova negociata nesse recente acordo entre o clube e o ex-presidente. ?Eles pegaram os créditos das pessoas físicas (empréstimos antigos) e os encaparam no nome dessa empresa EGL irregularmente, que aparece só agora nas auditorias. Isso aconteceu num período em que o Ziza Valadares, que estava para tomar posse na presidência, ainda não havia sido empossado?, denuncia Palhares.
Se nos capítulos anteriores, Manfredo taxou Paulo Cury de ?trombadinha? e Nélio Brant como um ?terremoto? dentro do Atlético, agora ele não consegue resumir Ricardo Guimarães apenas em um adjetivo. ?Pra mim, ele é simplesmente um dos maiores corruptores do país?, finaliza.








