Uma equipe internacional de cientistas acaba de publicar, na renomada revista Science, dois artigos com “provas robustas” de que o Mercado Atacadista de Frutos do Mar de Huanan, em Wuhan, na China, foi o epicentro da pandemia da COVID-19. Após um conjunto de análises espaciais, ambientais e moleculares, os 18 pesquisadores concluíram que animais vivos vendidos no estabelecimento são a fonte inicial do contágio do coronavírus para humanos, sendo que esse processo se deu por múltiplas introduções virais.

Para a equipe, os resultados praticamente eliminam cenários alternativos sugeridos para o surgimento da crise sanitária, como o vazamento do Sars-CoV-2 de um laboratório. “As análises das evidências disponíveis sugerem claramente que a pandemia surgiu de infecções humanas iniciais de animais à venda no mercado de Huanan, no fim de novembro de 2019”, enfatiza, em comunicado Kristian Andersen, biólogo do Departamento de Imunologia e Microbiologia do Scripps Research Institute em La Jolla, nos Estados Unidos, e autor de ambos os estudos.

Em uma das pesquisas, a equipe examinou os locais em que foram registrados os primeiro casos de COVID-19, bem como amostras de swab retiradas de superfícies de vários locais do mercado chinês. Liderados por Michael Worobey, da Universidade do Arizona, e Andersen, os cientistas determinaram os locais de quase todos os 174 casos de covid-19 identificados pela Organização Mundial da Saúde em dezembro de 2019 — 155 eram em Wuhan. As análises mostraram que esses casos estavam agrupados em torno do mercado de Huanan, enquanto os casos posteriores estavam amplamente dispersos pela cidade chinesa que tem mais de 11 milhões de habitantes.

 

Vírus se originou no mercado e se espalhou

O estudo mostra ainda que uma “porcentagem impressionante” dos pacientes iniciais de COVID sem conexão conhecida com o mercado — não trabalhavam nem compravam lá — morava perto do local. Na avaliação de Worobey, isso apoia a ideia de que o mercado foi o epicentro da pandemia, “com os vendedores sendo infectados primeiro e desencadeando uma cadeia de infecções entre os membros da comunidade na área circundante”.

Outra descoberta feita pelo grupo reforça essa hipótese. Ao analisar a distribuição geográfica dos casos posteriores de COVID, registrados em janeiro e fevereiro de 2020, eles identificaram um padrão “polar oposto” de contágio, segundo Worobey. Em vez de concentradas no mercado, as infecções estavam em áreas de maior densidade populacional em Wuhan. “Isso nos diz que o vírus não estava circulando de forma criptográfica. Ele realmente se originou nesse mercado e se espalhou a partir daí”, diz o pesquisador.

As análises das amostras de swab colhidas em superfícies do mercado, como pisos e gaiolas, que deram positivo para o Sars-CoV-2 foram “significativamente associadas” a barracas que vendiam animais selvagens vivos. Além disso, o grupo constatou que mamíferos agora conhecidos por serem suscetíveis ao vírus, como raposas vermelhas, texugos e cães-guaxinins, eram vendidos vivos no mercado, nas semanas anteriores aos primeiros casos registrados de COVID.

 

Múltiplas espécies

Segundo Andersen, chegar ao animal que foi o hospedeiro do vírus é uma questão-chave e ainda de resposta desconhecida. “O guaxinim já foi apontado como suspeito, e é possível, mas não temos nada que comprove isso. Inclusive, pode não ter sido um único animal, mas múltiplas espécies”, afirma, em coletiva de imprensa. A hipótese foi levantada pelo grupo diante dos resultados do segundo estudo, focado na análise de sequências genômicas de amostras de vírus que infectaram pessoas nas primeiras semanas da pandemia, na China.

A pesquisa, liderada por Jonathan Pekar e Joel Wertheim, ambos da Universidade da Califórnia, San Diego, por Marc Suchard, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, além de Andersen e Worobey, indica que o Sars-CoV-2, provavelmente, saltou de animais para humanos mais de uma vez. As análises mostram que a pandemia surgiu de pelo menos duas infecções separadas de humanos por animais no mercado de Huanan, em novembro ou dezembro de 2019, e, no início, envolveu duas linhagens sutilmente distintas do coronavírus.

Estudos anteriores relataram as duas linhagens, indicando que a A, relacionada a parentes virais em morcegos, teria dado origem à B. O novo estudo, porém, mostra que as duas linhagens saltaram de animais para humanos em ocasiões separadas. Wertheim explica que não é tão simples um vírus migrar de uma espécie para a outra e já evoluir a ponto de se tornar transmissível entre humanos. “Ao comparar o genoma dos vírus, vimos que não havia como a linhagem A (a original) evoluir para a B, em humanos. Em vez disso, as simulações que fizemos foram muito mais consistentes com introduções distintas e separadas das duas linhagens”, justifica.

Análises mais aprofundadas feitas pelo grupo trouxeram mais detalhes sobre o início das infecção. “Acreditamos que a maior parte das pessoas que pegou COVID no início não transmitiu o vírus. Na verdade, em 70% dos casos, o vírus não conseguia sobreviver. Propomos que, provavelmente, foram necessários de oito a 24 episódios de introdução do vírus em humanos para que a transmissão das linhagens A e B entre pessoas fosse bem-sucedida”, detalha Wertheim.

Os autores dos estudos, revisados por pares, sugerem que, para reduzir o risco de novas pandemias, cientistas e funcionários públicos devem buscar uma melhor compreensão do comércio de animais selvagens na China e em outros lugares, além de promover testes mais abrangentes de animais vivos vendidos em mercados. “É vital que saibamos o máximo possível sobre a origem da COVID porque somente entendendo como as pandemias começam podemos esperar preveni-las”, enfatiza Wertheim.

 

Fonte: Estado de Minas

 

 

 

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